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Verdadeiros e falsos Mestres

Verdadeiros e falsos Mestres

Por Sri Chinmoy, do livro Meditação, Yoga e a Arte de Viver: a Aventura da Vida

 

Seguir um Mestre espiritual é como caminhar com alguém que é infinitamente mais forte que você e está sempre pronto a auxiliá-lo e fazê-lo feliz de uma maneira divina.

 

O papel do professor espiritual

Todos têm um Guru, o Guru verdadeiro, que é o Piloto Interior, o Piloto Supremo. Há apenas um Guru, e esse Guru é Deus. O Mestre espiritual é somente um representante de Deus. Quando se é um principiante, talvez não se saiba onde está o verdadeiro Guru, o Guru eterno, justamente porque não se tem um acesso livre e consciente a Ele. Se então alguém auxiliar o buscador a entrar no seu próprio mundo de Divindade e Realidade, o buscador aprenderá ou descobrirá a sua própria Divindade. Esse é o papel do Mestre espiritual, do Guru humano. Mas o verdadeiro Guru está dentro dos mais íntimos recessos de cada coração aspirante.

O professor espiritual é o membro mais velho numa família. Porque ele tem um pouco mais de Paz, Luz e Deleite que os outros, Deus o escolheu para dar a sua pequena Paz, Luz e Deleite aos seus irmãos e irmãs mais novos. Ele sabe que não é o pai. E os irmãos e irmãs mais novos também sabem que ele não é o pai. O pai é outra pessoa. Mas, porque ele é o irmão mais velho, deve saber onde o pai está. O irmão mais velho da família diz aos mais novos: “Venham. Mostrarei a vocês onde o nosso Pai está.” Uma vez que consegue trazer os mais novos ao Pai comum, o seu papel acaba. Eles estarão por conta própria assim que mostrar a eles onde o Pai está.

A espiritualidade não é uma coisa fácil. Se alguém quiser aprendê-la corretamente, será necessário auxílio. Você foi para a faculdade ou universidade para conseguir o seu diploma, e então parou de estudar e começou a sua própria vida.

Se o buscador não buscar auxílio, ele poderá ter dificuldades, ter sérias dúvidas sobre a sua própria vida espiritual, e desistirá. Ele pensará que é impossível praticar a espiritualidade, pois há tantas dúvidas e tantas coisas erradas na sua vida. Mas, se houver um Mestre espiritual, o Mestre sempre o encorajará e o auxiliará.

Por isso é bom ter um Mestre espiritual, ainda que não seja obrigatório. Muitos realizaram Deus sem ter Mestres espirituais. Mas, se tiver um bom Mestre, será ótimo; você tem sorte.

Há diversas formas de saber se um Mestre é genuíno ou não. Se o Mestre diz que será capaz de conceder-lhe realização da noite para o dia, ele é um falso Mestre. Se disser que, caso você lhe pague uma taxa de algumas centenas ou milhares de dólares ele será capaz de auxiliá-lo a entrar num reino de consciência mais elevado e encontrar Paz, Luz e Deleite, então ele é um falso Mestre. Um verdadeiro Mestre dirá ao buscador que ele mesmo não é Deus; ele não é nem mesmo o Guru. Deus é o verdadeiro Mestre. O Mestre humano está apenas servindo a Deus nos buscadores; ele não é o Guru. O verdadeiro Guru é Deus. Se um buscador quiser saber quem é um verdadeiro Mestre, a partir dessas orientações ele poderá distinguir o verdadeiro do falso.

 

Mestre genuíno, buscador genuíno

Muitas vezes as pessoas tentam julgar se um Mestre é perfeito ou não. Mas facilmente elas podem se enganar. Se o Mestre é genuíno – isso é, se o Mestre realizou Deus – o que pode parecer uma fraqueza no Mestre na verdade não os afeta na sua auto-realização.

Contudo, certas fraquezas chamadas de humanas são uma coisa; mas, se o Mestre é indulgente na vida vital inferior, na vida sexual, esse Mestre é muito ruim e você deve deixá-lo. Se não sentir pureza no Mestre, se não enxergar nele a perfeição da vida do vital inferior, da vida emocional, mantenha uma enorme distância dele. Como você conseguiria através dele a perfeição da sua própria vida vital?

 

Pergunta: Como uma pessoa pode reconhecer um Mestre espiritual genuíno?

Sri Chinmoy: Quando você meditar com um Mestre espiritual, se em sua infinita bondade ele quiser lhe mostrar Luz e Paz através dos seus olhos ou através da sua presença espiritual, ele conseguirá. Quando um verdadeiro Mestre espiritual olha para um aspirante genuíno, o aspirante está fadado a sentir algo no Mestre. Uma pessoa Deus-realizada ou um Mestre espiritual não é alguém com asas e uma auréola para identificá-lo. Ele é normal, apesar de que em sua vida ele tem abundante Paz, Luz e Deleite. Se for até um homem espiritual esperando algo diferente de Paz, Luz, Deleite e Poder, você ficará desapontado.

Você também deve saber se é capaz de julgar. Se eu não conheço nada sobre a ciência médica, como julgarei um grande médico? Apenas outro médico será capaz de julgá-lo corretamente. Mas um enfermeiro, que conhece um pouco da ciência médica, será capaz de admirar um grande médico muito mais que eu. Na vida espiritual, um verdadeiro buscador que possui aspiração sincera e dedicação já alcançou um pouco de Luz interior. Por causa da sua aspiração, Deus lhe concedeu uma gota de Luz e, com essa Luz, ele estará destinado a enxergar e sentir algo num verdadeiro Mestre espiritual. Se alguém é realmente avançado na vida espiritual e está fazendo progresso rápido na sua jornada interior, a sua aspiração será o melhor juiz com relação a se o outro, chamado de Mestre, é genuíno ou não. O melhor juiz é a sua própria aspiração sincera.

 

Um Mestre espiritual é o guia incansável para os seres humanos buscadores de Deus.

 

Um Mestre que não é realizado poderá enganá-lo por um dia, um mês ou alguns anos, mas não poderá enganá-lo para sempre. Se a sua própria aspiração sincera for cem por cento pura e se você não quiser nada se não Deus, Deus não irá deixar você ficar com um Mestre não realizado, insincero, indefinidamente. Seria impossível!

 

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Há uma grande diferença entre um ocultista e um Mestre espiritual verdadeiro, que trilha o caminho da entrega à Vontade de Deus. “Seja feita a Vossa Vontade” não é a mensagem do Cristo apenas; é a mensagem de todos os Mestres espirituais. “Seja feita a Vossa Vontade” é a essência do Yoga da entrega. Não há Mestre espiritual que não chegue a essa percepção. Contudo, um ocultista que não seja da mais elevada visão sentirá que a sua própria vontade deve ser realizada antes. Essa é a diferença entre um ocultista e um verdadeiro Mestre espiritual.

O Filho de Deus, Jesus Cristo, esteve na Terra por trinta e três anos. Apenas durante os três últimos anos da sua vida ele fez milagres. Mas você pensa que o mundo ainda o adora e cultua apenas porque ele pode caminhar sobre as águas ou ressuscitar um homem morto? Não, não é por causa dos milagres que ele ainda é adorado, mas porque ele trouxe a Consciência eterna, a Consciência infinita. Sri Ramakrishna praticamente não fez milagres, e muitos, muitos outros Mestres espirituais não fizeram milagres. Eles sentiram que fazer milagres no plano físico seria pueril comparado com o que eram capazes de fazer no plano espiritual, na região do coração, onde habitam a infinita Paz, Luz e Deleite.

O poder kundalini e todos os poderes milagrosos da Terra são efêmeros, pois são poderes terra-limitados. Mas o Poder do Eu é infinito; o Poder do Eu transcendental é infinito e imortal. A coisa mais importante na Terra para um buscador espiritual é o despertar da consciência e a realização do Eu, pois isso é eterno. Se alguém vem aqui e faz alguns milagres, ficaremos fascinados. Mas quando formos para casa, nada sustentará a nossa fé no que ele fez. Parecerá tudo mágica ou ilusão. Por quanto tempo poderemos valorizar o mágico dentro ou diante de nós? Mas quando alguém ergue a nossa consciência mesmo por um segundo, ou se conseguirmos realizar isso através da nossa intensa aspiração, nossa fé nessa experiência será duradoura, pois ela será a nossa própria experiência.

 

Precisamos de tudo aquilo que dura para sempre. Precisamos da Imortalidade, da Imortalidade interior; e ela só vem com o despertar e elevação da nossa consciência.

Chakras, poderes ocultos e Kundalini Yoga

Chakras, poderes ocultos e Kundalini Yoga

Por Sri Chinmoy, do livro Meditação, Yoga e a Arte de Viver: a Aventura da Vida

Aqui no ocidente há muitos que sentem que os poderes do Kundalini Yoga são apenas superstição. Eu gostaria de dizer que aqueles que acalentam essa ideia estão completamente enganados. Mesmo os Mestres espirituais genuínos examinaram essa Yoga e descobriram através da experiência a autenticidade dos seus poderes ocultos subjacentes.

 

Kundalini, o Yoga da pureza

Kundalini é um processo de Yoga. Yoga é a união consciente com Deus. Dentro do nosso corpo sutil há seis centros psíquicos principais [chakras]. Quando abrimos esses centros, obtemos poderes ocultos. O processo para abri-los é chamado de kundalini, ou Kundalini Yoga.

Há vários caminhos que levam à Meta. Kundalini é um caminho que oferece um poder especial, mas há outros caminhos que também oferecem poderes similares. Digamos que há três estradas levando ao mesmo destino. Uma estrada tem várias árvores e flores, a segunda estrada tem algumas árvores e flores e a terceira não tem nenhuma. Trilhando o caminho kundalini, você vê poder, mas esse poder certamente não é o poder derradeiro. Para aqueles que não possuem poder espiritual ou poder oculto, o poder kundalini parece muito vasto. Mas, em comparação com o poder da Meta, o poder kundalini não é nada.

Em alguns caminhos, esse tipo de poder oculto não está presente. A estrada é desimpedida, e você simplesmente segue adiante e alcança a Meta. Uma vez que alcança a Meta, você obtém o poder onipotente, o poder espiritual. Mas o seguidor da kundalini costuma ficar apenas com o seu poder limitado. Apenas em muito raras ocasiões os buscadores caíram no caminho espiritual porque alcançaram o poder espiritual. Mas o poder kundalini, o poder oculto, levou muitos, muitos buscadores sinceros para longe da Verdade.

Na maior parte do tempo, o poder kundalini é uma maldição e não uma bênção. Caso utilize-o de forma inadequada, você será arruinado. Acabará destruindo todas as suas possibilidades de realizar o Altíssimo, e só Deus sabe quantas encarnações a mais serão necessárias para que você retorne ao caminho correto novamente. Noventa e nove por cento do tempo, o poder kundalini é utilizado erroneamente. Contudo, se o utilizar corretamente, terá a inspiração para fazer algo bom para o mundo.

Algumas pessoas costumam cometer um erro. Elas tentam fazer a kundalini ascender da maneira tradicional, começando pela base da espinha. Mas seu vital ainda está impuro, e elas se deparam com muitos problemas do vital. Eles dizem: “Antes do Yoga eu estava melhor. Eu era muito puro, mas agora toda a minha pureza sumiu.”

Ao se abrir os chakras sem a purificação do vital, principalmente do vital inferior, é possível se tornar desequilibrado, louco, insano. Muitas pessoas ficam loucas quando abrem os chakras antes de terem alcançado a purificação. Despertar o poder kundalini sem primeiro estar purificado é como dar uma faca a uma criança. Há toda a possibilidade de que ela a use erroneamente. Ela pode cortar o seu dedo ou fazer algo muito prejudicial e danoso. Contudo, quando se é maduro, pode-se utilizar a faca para cortar um fruto e oferecer aos amigos.

Se alguém realmente quiser aprender ocultismo, duas coisas devem ser totalmente evitadas. Estou falando do ocultismo ao pé da letra, e não magia negra e esse tipo de coisas que qualquer um pode praticar. O que deve ser afastado é o medo e o sexo. Se houver qualquer medo, seja no físico, mental ou psíquico, os grandes poderes dinâmicos ocultos nunca serão desenvolvidos. E, se houver qualquer movimento no vital inferior, indulgência em sexo e pensamentos impuros no ser, nenhum poder oculto poderá entrar.

Se você deseja seguir o caminho do kundalini, meu humilde conselho é primeiro tentar despertar o chakra do coração. O centro do coração é consideravelmente puro. O vital e as emoções perturbadores serão purificados pela abertura desse centro. Se puder primeiro abrir o centro do coração e, a partir disso, tomar a pureza de lá e entrar nos centros inferiores, não haverá perigo.

Se você deseja seguir o caminho do kundalini, meu humilde conselho é primeiro tentar despertar o chakra do coração.

Kundalini Yoga é o Yoga de pureza absoluta. É um dos Yogas mais sagrados, e nele a pureza física, vital, mental e psíquica é de importância fundamental. Os três principais nervos – ida, pingala e sushumna – sofrerão imensa e intensamente se houver qualquer indulgência sexual. E não são apenas as relações físicas prejudiciais. Ter pensamentos do vital inferior, pensamentos impuros na mente também é prejudicial.

Temos de saber se nos é recomendável despertar o poder kundalini.

Em todos os Yogas é necessário um professor espiritual. No Kundalini Yoga, a necessidade de um professor espiritual é primordial. Ao seguir outros Yogas, certamente precisará de um Mestre; mas, se não quiser um Mestre, se quiser ir bem devagar, sem parar, como um carro de bois, não há problema. Outros caminhos não apresentam perigo. Você alcançará o seu destino após mil anos, em outra vida, mas não haverá perigo especial em viajar sem um guia. Mas, no Kundalini Yoga, se não tiver um Mestre verdadeiro para lhe ensinar, estará brincando com fogo. Se os centros espirituais, principalmente os centros inferiores – muladhara, svadhisthana e manipura – forem abertos fora do tempo, sem um preparo completo, eles poderão criar um sofrimento inimaginável para o buscador. O professor usa a sua vasta sabedoria para encurtar a longa estrada para o seu aluno. O professor usa a sua vasta compaixão para transformar a estrada árdua numa estrada fácil e plana para o aluno. O professor usa a sua iluminadora luz para remover a incerteza da mente do aluno e substituí-la por certeza absoluta. O professor usa o seu poder indomitável para afastar todo o perigo do aluno, do início ao fim da jornada. Ele também faz um caminho sol-iluminado, para que o aluno possa correr o mais rapidamente sem perigo ou obstruções no caminho.

 

Poder oculto costuma ser drástico e vulcânico. O poder espiritual é sempre puro e absolutamente seguro.

 

Pergunta: Qual dos sete chakras é o mais importante para um iniciante abrir inicialmente?

Sri Chinmoy: Deve-se tentar abrir o chakra do coração, o centro espiritual, primeiro. Não apenas iniciantes, mas todos os que praticam a vida espiritual e que querem abrir os chakras. O termo do sânscrito para esse chakra é anahata, o Som Sem Som. O som-semente do chakra é Yam. É o seu nome secreto. Mas você não precisa usar a palavra yam. Você pode cantar “Supreme” [Supremo] ou “God” [Deus]. Algumas pessoas sentem mais alegria ao entoar o nome de Deus, do Supremo. No seu caso, “Supreme” será o melhor para abrir esse chakra. Quando esse chakra se abre, ele traz uma sensação de Alegria, Paz e Deleite. As emoções exteriores, emoções vitais ou perturbadoras, serão purificadas pela abertura desse centro. Para um iniciante, ou para qualquer um que deseje abrir os chakras, o melhor é abrir o chakra do coração primeiro.

Prazer e deleite, sofrimento e purificação

Prazer e deleite, sofrimento e purificação

Por Sri Chinmoy, do livro Meditação, Yoga e a Arte de Viver: a Aventura da Vida

 

Deleite e consciência divina

Há uma grande diferença entre prazer e alegria. O que acontece é que o mundo humano, a consciência humana, clama por prazer; e, a cada vez que o prazer é satisfeito, vemos que a frustração emerge do prazer. Mas sentindo que a alegria está vindo para as nossas vidas, essa alegria irá da alegria para mais alegria, alegria abundante, alegria ilimitada. Assim, quando há verdadeira alegria em nós – quando meditamos por cinco ou dez minutos – obtemos a alegria interior que nos satisfaz. Todavia, quando pensamos no prazer, em comprar algo desnecessário, como um Cadillac ou algo do tipo, estamos obtendo prazer com aquilo. Logo em seguida nos sentimos frustrados, pois o que obtivemos não é bom o suficiente; queremos algo mais confortável. Estamos correndo atrás de conforto. Se corrermos atrás do conforto com o auxílio do nosso desejo, naturalmente não ficaremos satisfeitos. Já, ao clamar por alegria, alegria interior, toda vez estamos correndo em direção à satisfação, pois a alegria interior só quer que satisfaçamos Deus; e apenas ao satisfazer Deus é que podemos ser verdadeiramente satisfeitos.

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Há uma noção comum de que, se passarmos por sofrimentos, tribulações e dor física, nossa existência será purificada. Essa ideia não está fundamentada em realidade. Há muitas pessoas que sofrem por causa do seu karma passado ou por causa de forças não divinas que as atacam, mas não podemos dizer que essas pessoas estão se aproximando do seu objetivo. Elas têm de aspirar mais sinceramente para alcançar seu objetivo. Não abraçaremos a dor; tentaremos superar a dor se ela aparecer. Ao encararmos a dor como uma experiência, seremos capazes de transformá-la em alegria através da nossa identificação com a alegria, a qual devemos então tentar trazer para dentro da dor.

Dores físicas, vitais e mentais devem ser transformadas em alegria através do nosso constante clamor interior por algo que irá nos dar verdadeira e permanente satisfação. Na vida espiritual, a melhor coisa é encarar a dor como uma algo que deve ser transformado numa experiência de alegria. A alegria é a única realidade eterna, a única realidade permanente e duradoura. Mas seria completamente errado dizer a que, a cada vez que sofremos, damos um passo em direção à nossa meta.

Algumas pessoas sentem que a dor é indispensável, mas não é necessário passar pelo sofrimento para que possamos entrar no reino do Deleite. Muitas pessoas realizaram Deus através do amor. O Pai possui amor pelo filho, e o filho possui amor pelo Pai. Esse amor nos leva à nossa meta. A nossa filosofia enfatiza a maneira positiva de se aproximar da Verdade. Temos uma luz limitada; tentemos aumentá-la. Que façamos progresso de muita luz para luz abundante e Luz infinita.

 

A mais elevada descoberta é esta: viemos do Deleite, estamos no Deleite, nos tornamos o Deleite e, ao fim da nossa jornada, nos retiramos para o Deleite.

 

Agora o Deleite está no mundo interior. O mundo exterior é todo sofrimento. Vemos as pessoas discutindo e brigando. Temos muitos elementos não divinos em nós: medo, dúvida, ansiedade, etc. Mas, quando mergulhamos fundo no nosso interior, através da nossa meditação mais elevada descobrimos que o Deleite é a nossa origem, a nossa Fonte. No Deleite jogamos o Jogo cósmico e, ao fim do Jogo cósmico, nos retiramos novamente ao Deleite.

Maya, ilusão e lila

Maya, ilusão e lila

Por Sri Chinmoy, do livro Meditação, Yoga e a Arte de Viver: a Aventura da Vida

Pergunta: Falando-se sobre o ensino, tenho tido dificuldade em explicar o conceito da doutrina hinduísta chamado de ‘maya’, principalmente no que concerne ao entendimento da vida como ‘ilusória’. Tenho problemas similares quando falo sobre o mundo como o ‘lila’ [o Teatro de Deus] e tento explicar a ‘falta de propósito’ do mundo criado por Deus como uma consequência de ser o Teatro Divino de Deus. Como posso melhor ensinar esses conceitos aos alunos nos Estados Unidos?

Sri Chinmoy: A doutrina hinduísta utiliza o termo ‘maya’, que significa ‘ilusão’. Desde o nascimento da religião hinduísta, tem sido uma crença que o mundo é uma ilusão. As personalidades espirituais do hinduísmo, os filósofos e alguns dos seus pensadores sentem um prazer enorme em dizer que o mundo nada mais é do que uma ilusão. Sua filosofia é: porque dar tanta atenção, ou qualquer atenção, a algo que é irreal?

Eu gostaria de dizer que é o cúmulo da nossa tolice dizer ou sentir que temos mais sabedoria ou entendimento que o Deus Transcendental e Universal. Estamos prontos para orar a Deus. Estamos prontos para nos dedicar à nossa ideia Dele. Mas não estamos prontos para aceitar a criação de Deus como algo real. Se acreditamos que estamos orando a um Deus que é real, então como podemos separar a realidade de Deus do próprio Deus?

‘Maya’ possui ainda outro significado, querendo dizer ‘efêmero, impermanente, temporário’. As coisas que vemos ou fazemos ou existem no mundo físico não durarão para sempre. Portanto, algumas pessoas descrevem o mundo físico como irreal. Mas a realidade exterior não precisa de imortalidade. Apesar de a realidade altíssima ser infinita, eterna e imortal, a realidade também pode ser breve, assim como o infinito pode ser infinitamente pequeno ou infinitamente vasto. A realidade pode ser breve e pode ser duradoura. A realidade pode ser imortal. Uma flor que dura apenas um dia não é irreal. Um ser humano que vive por 80 anos não é irreal. Eles são temporários; portanto, talvez você os descreva como ilusórios. Eles são reais, mas limitados, impermanentes.

 

Não importa o quanto tentemos definir Deus, não conseguiremos defini-lo. Definir é limitar, e Deus é ilimitado. Deus é a Criança da Eternidade, brincando no Jardim-Coração da sua própria Infinidade.

 

Alguns filósofos são da opinião que apenas o que dura para sempre é real. Mas se a Vontade de Deus é de criar algo que seja permanente ou algo que durará apenas pouco tempo, isso é uma escolha Dele. Ambas continuam sendo Suas criações. Ele é ao mesmo tempo o Criador e a criação, o Jogador e o jogo, o impessoal e o pessoal, o invisível e o visível, o conhecido e o incognoscível, o real e o irreal.

Não importa o quanto tentemos definir Deus, não conseguiremos. Definir é limitar, e Deus é ilimitado. Deus é a Criança da Eternidade, brincando no Jardim-Coração da sua própria Infinidade.

Assim como uma criança pequena sente uma imensa satisfação quando brinca com seus amigos, Deus a Criança-Jogadora gosta de brincar com Suas criações-amigas-crianças. Deus é um, mas Ele deseja experimentar-Se de maneiras incontáveis e formas incontáveis. E isso Ele faz através do seu Teatro Cósmico, do Seu ‘lila’. Você e eu e todos os seus alunos somos amigos-criações de Deus, apesar de não compreendermos o propósito da criação de Deus ou o nosso papel nela.

 

Pergunta: Qual deveria ser a atitude de uma pessoa com relação a coisas que fez antes, quando a mente mais elevada, que sabia que era errado fazer aquilo, não estava no controle? Qual deveria ser a nossa postura quanto à culpa que resulta dessas ações prévias?

Sri Chinmoy: A postura deve ser que o passado já se foi. Você fez algo errado. Se acalentar a ideia de culpa, “Fiz algo errado,” estará sendo sincero. Mas ficar pensando no seu erro, ter essa sinceridade, não ajudará. Mantendo uma consciência de culpa, você não obterá luz ou sabedoria. Se você fez algo que não está certo, agora tente fazer a coisa certa, a coisa divina. Esse segundo, esse minuto foi usado por você. Você poderia tê-lo usado para um propósito bom ou um propósito ruim. Tudo bem, você o usou para um propósito ruim. Então use o minuto seguinte para um propósito divino. Se usar para um propósito divino sem pensar no minuto anterior, quando fez algo errado, o que acontecerá? A sua força positiva, essa força de vontade que você usou para fazer a coisa certa terá todo o poder, toda a quantidade. Contudo, se pensar no minuto anterior com um sentimento de culpa, de que fez algo errado, e só então pensar que no minuto seguinte você fará a coisa certa, metade do seu poder se perderá de novo na escuridão, e apenas a outra metade poderá ser aplicada no minuto seguinte para a ação correta. Por isso eu digo aos meus discípulos que devem tentar trazer à tona seu poder integral no minuto seguinte e assim anular o erro anterior.

Ao ficar pensando ou acalentando ações ruins, a pessoa estará fortalecendo inconscientemente a sua culpa. Eu posso até pensar “Estou me arrependendo.” Mas por que eu deveria me arrepender? Eu fiz algo errado. Mas eu sou um herói. Estou preparado para sofrer as consequências. Se eu fiz algo errado, tenho a capacidade de fazer a coisa certa. Ao focarmos toda a atenção na coisa certa, estaremos aumentando a nossa força positiva.

O sentimento de culpa, o sentimento constante de autorreprovação é, infelizmente, todo-presente no mundo ocidental. Se a minha Fonte é Deus, a Luz Absoluta Infinita, se eu sei que é de lá que eu vim, então algum dia devo retornar à minha Fonte. Durante a minha permanência na Terra, infelizmente, tive algumas experiências destrutivas, não aspirantes e nada saudáveis. Agora tenho de me livrar dessas experiências infelizes. Tenho de ter experiências preenchedoras na minha vida. Para isso, devo me concentrar apenas na coisa certa, na coisa divina que me satisfará, e não nas coisas que se colocaram contra mim no meu caminho.

Experiências com drogas na meditação

Drogas e a meditação

Abaixo algumas perguntas do livro Meditação, Yoga e a Arte de Viver: a Aventura da Vida

Pergunta: Há muitas pessoas que reivindicam que através do uso de certas drogas elas conseguem se aproximar de Deus. O que você sente sobre o uso de estimulantes, drogas, etc., para estimular a mente de forma a se aproximar de Deus?

Sri Chinmoy: Começarei dizendo que há duas maneiras de abordar a Verdade. Uma é através da meditação e oração, onde, conhecendo a Verdade real, sentimos o êxtase real, vemos a luz verdadeira, experimentamos a Existência, Consciência e Deleite. Esses três últimos caminham juntos, e podemos alcançar tal estágio apenas através da meditação e unicidade com Deus. Todavia, aqueles que estão usando drogas estão colocando o carro na frente dos bois. Eles se enganam ao pensar que já conhecem a Verdade. Ao mesmo tempo, não percebem que, ao ingerir drogas, estão danificando suas faculdades interiores, espirituais, que são de importância fundamental para se entrar no reino de Deus. Deixem-me tornar isso claro a vocês.

Se vocês me lançarem no mar e me fizerem mergulhar, imergindo-me forçosamente na água e não permitindo que retorne à superfície, o que eu verei? Tudo ficará vazio, branco. É exatamente o que acontece com aqueles que buscaram as drogas. Através das substâncias químicas, acontece uma alteração violenta de consciência. Eles têm uma experiência… tudo fica branco! Mesmo que seja uma experiência elevada, eles não poderão mantê-la sem mais uma dose das substâncias químicas. Mas quando eu oro, quando me concentro, quando medito, entro na Consciência Viva de Deus e posso aprender a ficar lá. É a forma positiva de se adentrar Deus. Deus é natural, e eu sou o Seu filho, e você é filho Dele; temos de seguir o processo natural também. Ao ingerir drogas e usar esses meios artificiais, as pessoas estão inconscientemente, ou talvez intencionalmente, negando a Verdade real.

Eu tenho dois ou três alunos que costumavam usar drogas. Eles tiveram ‘experiências’ em primeira mão e me contam hoje que, quando usavam drogas, era tudo autoilusão e autoaniquilação. Mas o que eles vivem agora é autoaceitação e autossatisfação. Essa é a diferença que descobriram hoje. Nem preciso dizer que tenho orgulho das suas conquistas espirituais.

Voltando à sua pergunta, nenhum homem conseguirá se aproximar de Deus ao utilizar drogas ou estimulantes. Ele só pode de aproximar de Deus ao amar Deus e meditar em Deus.

 

Pergunta: As experiências com drogas são de alguma valia?

Sri Chinmoy: As experiências com drogas são como moedas falsas. É como se você fosse uma criança sem dinheiro algum. Você encontra uma bela moeda. Você sabe que é uma moeda por causa da forma e fica feliz por ter obtido o dinheiro com tanta facilidade. Mas é uma moeda falsa. Caso leve-a a um lojista, ele irá lhe dar uma surra ou o mandará embora da loja. Ele não a aceitará. Você verá que a sua moeda não vale nada e não conseguirá comprar nada com ela.

Deus e os mundos superiores

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Deus e os mundos superiores

Abaixo algumas perguntas do livro Meditação, Yoga e a Arte de Viver: a Aventura da Vida

 

O propósito da vida é manifestar a divindade interior. O propósito da vida é se tornar um instrumento consciente, um instrumento escolhido de Deus. O propósito da vida é manifestar a Verdade altíssima que personificamos. Primeiro temos de enxergar a Verdade e sentir a Verdade. Então temos de revelar e manifestar a Verdade.

 

Encontrando Deus

Realização-Deus ou siddhi é a Auto-descoberta no sentido mais elevado da palavra. A unicidade com Deus é realizada de forma consciente. Enquanto o buscador permanece na ignorância, ele sente que Deus é outra coisa, que possui Poder infinito, ao passo que ele, o buscador, é a pessoa mais frágil na terra. Todavia, na hora que realiza Deus, ele passa a saber que ele e Deus são absolutamente um na vida interior e exterior. Realização-Deus é a identificação com o próprio absolutamente mais elevado Eu. Identificar-se com o próprio Eu mais elevado e permanecer nessa consciência para sempre, conseguir revelar e manifestá-lo à vontade: isso é realização-Deus.

Você estudou livros sobre Deus, e pessoas lhe disseram que Deus está em todos. Mas não realizou Deus na sua vida consciente. Para você, é tudo especulação mental. Todavia, quando se é Deus-realizado, conhece-se o que Deus é, com o que Ele se parece, o que Ele deseja. Ao alcançar a Auto-realização, a pessoa permanece na Consciência de Deus e fala com Deus face a face. Ele enxerga Deus tanto no finito quanto no infinito; ele vê Deus como pessoal e impessoal. Nesse caso, não é alucinação mental ou imaginação; é uma realidade direta. Essa realidade é mais autêntica do que o meu ver você diante de mim. Quando falamos com um ser humano, há sempre um véu de ignorância: escuridão, imperfeição, desentendimento. Mas entre Deus e o ser interior daquele que O realizou não há ignorância, não há véu algum. Ele pode falar com Deus mais claramente, mais convincentemente, mais abertamente do que com um ser humano.

Como seres humanos comuns, sentimos que a infinita Paz, infinita Luz, infinito Deleite e infinito Poder divino são apenas pura imaginação. Somos vítimas da dúvida, medo e forças negativas, coisas que sentimos ser bastante normais e naturais. Não conseguimos amar nada puramente, nem nós mesmos. Estamos no finito, discutindo e lutando, e não há coisa tal como Paz ou Luz ou Deleite em nós. Mas aqueles que praticam meditação mergulham fundo no interior e enxergam que lá realmente existe paz, luz e deleite verdadeiros. Eles obtêm ilimitada força interior e descobrem que a dúvida e o medo realmente podem ser desafiados e superados. Quando alcançamos a realização-Deus, a nossa existência fica inundada de Paz, Serenidade, Equanimidade e Luz.

 

Iluminando nossa vida

No dia a dia, falamos frequentemente de limitação e liberdade. Mas a realização diz que não há tal coisa como limitação e liberdade. O que existe na verdade é consciência – consciência em diversos níveis, a consciência desfrutando-se em suas várias manifestações. No campo da manifestação, a consciência possui diferentes graus. Por que oramos? Oramos porque a nossa oração nos leva de um nível inferior de iluminação ao um nível mais elevado. Oramos porque a nossa oração nos deixa mais próximos de algo puro, belo, inspirador e preenchedor. A iluminação mais elevada é a realização-Deus. Essa iluminação deve acontecer não apenas na alma, mas também no coração, mente, vital e corpo. Realização-Deus é uma união consciente, completa e perfeita com Deus.

O que é Deus?

o que e deus?

O que é Deus?

Abaixo algumas perguntas do livro Meditação, Yoga e a Arte de Viver: a Aventura da Vida

 

Sri Chinmoy: Deus é infinita Consciência, infinito Deleite, mas Ele também pode assumir uma forma finita. Ele é infinito, Ele é finito; ao mesmo tempo, Ele transcende ambos finito e infinito. Ele é vida, Ele é morte; e Ele está além da vida e da morte. Quando digo ‘Supreme’ [Supremo, em português], estou me referindo ao Infinito, Eterno e Imortal. Mas, quando eu O vejo, eu O vejo face a face, justamente como estou vendo você agora. Contudo, o fato é que Deus é ilimitado e toma todas as formas no campo da manifestação, desde um minúsculo inseto até um enorme elefante. Muitas pessoas não conseguem concordar com a ideia de que Deus pode ser finito. Mas pensemos em uma das qualidades divinas de Deus, a Onipresença. De acordo com a nosso sentimento humano, quando pensamos em onipresença, imediatamente pensamos em vastidão. É verdade, Ele é tão vasto quanto o mundo, mas porque Ele está em tudo, Deus também pode ser finito. Deus é também onipotente. Onde estaria a sua Onipotência, se ele não pudesse se tornar uma criança pequena, um minúsculo inseto ou um átomo? Não conseguimos fazer praticamente nada por conta própria. Mas justamente porque Deus é onipotente, Ele pode fazer o que desejar e quando quiser. Ele pode ser enorme, Ele pode ser mínimo.

Deus é tudo, mas cada pessoa deve sentir por si mesma que Deus é todo por ela. Ele pode ser infinita Luz, infinita Consciência, infinito Poder, infinita Alegria, infinito Deleite, infinita Compaixão, infinita Energia. Ele pode ser pessoal, com forma. Ele pode ser impessoal, sem forma, assim como a água tem forma quando é gelo e não tem forma quando é líquida. Por vezes sentimos alegria quando vemos Deus com forma; por vezes, sentimos alegria quando vemos Deus sem forma. Podemos vê-Lo no Seu aspecto impessoal como uma vastidão de Luz. No Seu aspecto pessoal, Deus pode aparecer como um ser humano luminoso, com duas mãos, dois olhos e tudo o mais que nós temos. Ele será o Ser mais iluminado no Céu e na Terra. Quando Ele aparece como um Ser pessoal, podemos ter todos os tipos de conversas íntimas face a face com Ele.

 

Pergunta: Algumas pessoas dizem não acreditar em Deus, mas são pessoas boas e parecem felizes. Como você explicaria isso?

Sri Chinmoy: Independentemente da maneira com que apreciamos a realidade ou queremos nos identificar com a realidade, temos de sentir que estamos apreciando e nos identificando com a Divindade; e essa Divindade chamamos de Deus, Espírito ou Ser. Se não quiser chamar de Deus, você terá toda a liberdade. Mas então deverá chamá-la de felicidade. Felicidade é Deus. Se apreciar a beleza da natureza e ficar feliz, a felicidade que você estará experimentando será Deus.

 

Se Deus tiver de ser definido em uma palavra, eu diria que Deus é felicidade.

Mundos inferiores e superiores

mundos superiores

Mundos inferiores e superiores

Abaixo algumas perguntas do livro Meditação, Yoga e a Arte de Viver: a Aventura da Vida

 

Há sete mundos inferiores e sete mundos superiores dentro de nós. Estamos tentando transformar os mundos inferiores em mundos luminosos, mundos de perfeição; e, ao mesmo tempo, estamos tentando trazer os mundos superiores para a nossa manifestação exterior. Alguns dos mundos superiores nós já vemos operando no nosso mundo físico, na Terra. Primeiro vem o físico, depois o vital, depois a mente, então vem o plano de intuição, ou mente intuitiva, e a sobremente e supermente. Além da supermente existe Existência-Consciência-Deleite – Sat-Chit-Ananda.

Se souber como observá-los, poderá ver que alguns desses mundos já estão operando em você. Durante a meditação, você pode claramente enxergar que não é o mundo físico que entra em você. É algo mais: a mente elevada, sobremente, intuição ou algum outro mundo sutil. Mas apenas os Mestres espirituais e grandes aspirantes são conscientes do fato de que esses mundos estão se manifestando nas suas atividades diárias, justamente no mundo exterior. A pessoa comum, mesmo quando lampejos de intuição surgem na sua mente, não será capaz de saber que eles vêm do mundo da intuição. Contudo, cada pessoa, seja hoje ou amanhã, deve se tornar consciente desses mundos. E não só isso; ela deve manifestar a verdade, a luz, a beleza, a riqueza de todos os mundos superiores neste mundo.

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Grandes Mestres espirituais de tempos imemoriais trouxeram os aspectos Sat e Chit. Mas Ananda é muito mais difícil de trazer. Alguns não o conseguiram de forma alguma. Alguns o trouxeram, mas ele durou apenas por alguns segundos ou minutos e retornou ao lugar de onde veio.

A Paz é acessível; podemos trazer Paz. A Luz e o Poder podem facilmente ser trazidos. Mas o Deleite que imortaliza a nossa consciência interior e exterior não foi estabelecido na Terra. Ele vem e vai, pois enxerga tanta imperfeição na atmosfera do mundo que não consegue permanecer.

A Paz é acessível; podemos trazer Paz. A Luz e o Poder podem facilmente ser trazidos. Mas o Deleite que imortaliza a nossa consciência interior e exterior não foi estabelecido na Terra.

Mesmo pessoas espiritualmente avançadas acabam ficando confusas. Elas sentem um êxtase interior que vem do mundo vital e pensam que é o Deleite verdadeiro. Mas não é. O verdadeiro Deleite vem do mundo mais elevado para a alma e, a partir da alma, satura o ser por completo.

Esse Ananda é absorvido diferentemente do deleite físico, o qual chamamos de prazer ou desfrutar. O Deleite supra mental é completamente diferente do mundo de prazer e desfrutar. Uma vez que receba mesmo uma gota desse Deleite, sentirá que o seu ser interior dança em alegria como uma criança da mais absoluta pureza, e o seu ser exterior sente Imortalidade na sua existência exterior. Caso sinta esse Deleite mesmo por um segundo, você lembrará por toda sua vida.

Ao nosso redor está o Jogo cósmico, o Teatro cósmico. O universo está cheio de alegria, alegria interior e alegria exterior. Quando a realização acontece, temos de sentir a necessidade de manifestar esse Deleite constante no nosso coração. Esse Deleita brilha, mas não queima. Ele possui uma intensidade tremenda, mas é todo suavidade e um Néctar absolutamente doce-fluente. Certo dia eu trouxe esse Deleite para o meu físico material de forma que, enquanto eu sorria, estava espalhando o Deleite mais elevado para cada um de vocês. Mas devo dizer que tudo desapareceu. Ninguém dentre os discípulos o manteve.

 

Pergunta: Se um ser humano pudesse transformar a sua consciência de forma a se identificar com a Consciência Universal, certamente esse ser humano merece ser reverenciado. Ao mesmo tempo, há malucos que ficam se dizendo seres elevados. Quais são as marcas que distinguem um santo de um louco?

Sri Chinmoy: Os santos estão embriagados de êxtase divino. Os grandes santos espirituais, quando alcançam sua perfeição espiritual, bebem néctar ambrosial. Eles vivem numa consciência de deleite, na qual sentem que o próprio mundo abriga o oceano espiritual de bem-aventurança. Alguns tentam trazer para cá esse Deleite altíssimo, Ananda, a partir de um plano muito elevado de onde o receberam, e por vezes acham difícil. Quando sentem a dificuldade em tocar o plano material carregando essa Bem-aventurança, eles podem perder seu equilíbrio interior e, por um curto período de tempo, podem ficar deslocados da consciência física. Eles podem não conseguir operar normalmente no plano físico nessa hora. Um buscador pode esquecer o seu nome, por exemplo, e talvez os outros digam que ele está maluco.

Contudo, um louco comum está mentalmente, vitalmente ou fisicamente deslocado. Ele nunca sabe o que fazer ou o que dizer ou como agir. Ele perdeu permanentemente a conexão entre o mundo físico e a sua própria existência na Terra. Portanto, sempre que ele diz ou faz algo, não há harmonia com a Consciência Universal. Isso é, ele não consegue se projetar na Consciência Universal em que todos vivemos. Estamos todos vivendo na Consciência Universal, apesar de não estarmos conscientes disso. Ao mesmo tempo, não estamos violando as regras da Consciência Universal. Um louco também está inconsciente da Consciência Universal, mas, ao mesmo tempo, ele viola as leis do universo, da Consciência Universal, devido à sua ignorância.

Assim como temos ideias pré-concebidas, o louco também tem ideias pré-concebidas, mas ele não consegue formular as suas ideais como nós. Nós temos um cérebro e conhecemos a nossa mente. Sabemos como um pensamento segue o outro pensamento. No caso de um louco, não é o que acontece. Todos os pensamentos e ideias dos mundos superiores e inferiores vêm até ele como um lampejo, e ele perde todo o seu equilíbrio interior e exterior. As forças e pressões dos outros mundos entram nele e encontram ali um canal aberto para se expressarem.

Um louco comum nunca estará aberto para a Luz ou para a Verdade ou para o que poderá salvá-lo, salvar a sua vida, a sua existência na Terra. O louco Deus-embriagado, no entanto, é o verdadeiro santo, louco de Beleza divina, Luz divina, Pureza Divina e tudo que há de divino. Ele quer possuir e ser possuído pela Divindade. Essa é a diferença entre um louco comum e um santo Deus-embriagado.

O louco Deus-embriagado, no entanto, é o verdadeiro santo, louco de Beleza divina, Luz divina, Pureza Divina e tudo que há de divino.

Deus é o Amigo eterno do homem. Quando o homem busca Deus, não como um pedinte, mas como um amigo, ele recebe Deus mais cedo. Ele recebe Deus na Sua mais doce Forma. Não somos os escravos de Deus. Somos Seus filhos, seus filhos escolhidos.

Paz interior e liberdade

paz interior

Paz e liberdade

por Sri Chinmoy, do livro Meditação, Yoga e a Arte de Viver: a Aventura da Vida

 

É apenas através

Da paz interior

Que poderemos ter

Verdadeira liberdade exterior.

 

A origem da liberdade

Liberdade é felicidade. Liberdade é plenitude. Liberdade pode ser outras coisas, também. A liberdade pode trazer sofrimentos terríveis. Os seres humanos precisam de liberdade – liberdade da tirania, liberdade da escravidão, liberdade das amarras, liberdade da ignorância. Alguns seres humanos querem liberdade para criar, e outros querem liberdade para destruir. Outros ainda precisam de liberdade para aspirar e se dedicar.

Lutamos pela liberdade exterior. Clamamos pela liberdade interior. Com a liberdade exterior, alcançamos e dominamos os quatro cantos do mundo. Com a liberdade interior, vemos a Alma e nos tornamos a Meta de todo o universo.

Sinto que a liberdade vive na paz e somente na paz.

Se você tem paz interior, ninguém poderá forçá-lo a ser um escravo da realidade exterior.

Nenhum preço é grande demais a se pagar pela paz interior. A paz é o controle harmonioso da vida. Ela ressoa, repleta de energia-vida. É um poder que facilmente transcende todo o nosso conhecimento mundano. Ainda assim, não está separado da nossa existência terrena. Se abrirmos os caminhos corretos dentro de nós, essa paz poderá ser sentida aqui e agora.

A pior tristeza que pode acometer um ser humano é perder a sua paz interior. Nenhuma força externa pode roubá-la. São os seus próprios pensamentos, as suas próprias ações que a roubam.

O mundo interior foi encarcerado pela inquietação e pelo nervosismo. A meta de se praticar Yoga é justamente ter paz, paz de espírito. Quando alguém adquire paz de espírito, automaticamente ele passa a ter uma força interior insuperável. Como poderia o nervosismo afetar alguém que está repleto de força interior? Não haverá qualquer inquietação ou nervosismo. O nervosismo vem quando você separa a parte do seu todo. O medo aparece quando você separa uma coisa do seu todo.

Não devemos permitir que o nosso passado atormente e destrua a paz do nosso coração. Nossas ações boas e divinas de hoje podem facilmente contrabalançar nossas ações ruins e não divinas do passado. Se o pecado tem o poder de nos fazer chorar, a meditação tem o poder de nos proporcionar alegria e nos imbuir de sabedoria divina.

Nossa paz é interior, e essa paz é a fundação da nossa vida.

Nossa paz é interior, e essa paz é a fundação da nossa vida. Assim, de hoje em diante, façamos nossas mentes e corações repletos de lágrimas de devoção, que são a fundação da paz. Se a nossa fundação é sólida, não importa o quão alto ergamos a estrutura, o perigo nunca poderá nos ameaçar, pois há paz acima, há paz abaixo, há paz interior, há paz exterior.

Yoga e a libertação da mulher

Abaixo algumas perguntas do livro Meditação, Yoga e a Arte de Viver: a Aventura da Vida


Pergunta: Qual o papel da mulher na vida espiritual nesses tempos de ‘libertação feminina’ e tudo o mais? Num sentido espiritual, qual o verdadeiro lugar da mulher e do homem?

Sri Chinmoy: Ao Olho de Deus, não há homem e nem mulher. Ao Olho de Deus, eles são a mesma coisa. O homem é o rosto; a mulher é o sorriso. Sem o rosto, como pode haver um sorriso? E, sem um sorriso, de que adianta um rosto? Ambos são igualmente importantes.

Pergunta: O esposo e a esposa podem ter diferentes professores?

Sri Chinmoy: Se esposo e esposa tiverem diferentes professores será como ir para um mesmo destino por duas estradas. Haverá problemas se o esposo disser que a sua estrada é clara, sol-iluminada, ao passo que a estrada da esposa está cheia de obstáculos. As dificuldades começarão aí. Mas, se o esposo disser: “Eu gosto desta estrada, e você gosta dessa. Siga o seu próprio caminho, e eu seguirei o meu. Tentaremos alcançar o mesmo destino,” então não haverá problemas. A postura correta é quando o esposo não tenta converter a esposa, e a esposa não tenta converter o marido. Contudo, quando surge um sentimento de comparação ou competição, tudo se perde.

Pergunta: Mas a união entre duas pessoas diminui quando estão seguindo dois caminhos diferentes até a mesma coisa?

Sri Chinmoy: Não. O que precisamos saber é quanto respeito e compreensão eles têm pelo caminho do outro. Se tiverem o mesmo Mestre, se estiverem caminhando pela mesma estrada, será sempre seguro. Se o esposo e a esposa seguem o mesmo caminho e o esposo fica cansado, exausto, é atacado por dúvidas, a esposa se torna seu auxiliar. E, se a esposa é atacada por dúvida ou medo, o esposo pode ser um auxílio genuíno. Se seguirem o mesmo caminho será muito vantajoso.

Todavia, se a esposa disser, “Eu quero seguir o caminho do coração,” e o esposo disser, “Eu quero seguir o caminho da mente,” eles precisarão ser muito cuidadosos. Cada um deve saber que o que o outro faz está correto, de acordo com o seu entendimento e capacidade. É necessário respeito mútuo pelas descobertas individuais.


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