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Como ter mais disciplina

Por Patanga Cordeiro

Normalmente sentimos necessidade de mais disciplina ao realizar nossas ações, nossa meditação, nosso dia. Por vezes, ficamos só na imaginação, esperando que um dia ela irá crescer. Por outras, usamos a própria mente para forçar um aumento na disciplina, que por sua vez pode trazer outros desequilíbrios na nossa vida. Sri Chinmoy, um Mestre espiritual, no entanto, tem a solução profunda para o nosso dilema, de forma clara, concisa e natural.

 

Pergunta: Como podemos disciplinar a mente?

Sri Chinmoy: Tente sentir que você não tem mente, mas sim alma. Se não conseguir sentir a presença da sua alma, ainda assim poderá facilmente sentir a presença do seu coração. Deixe que a Luz do seu coração percorra o seu ser por completo. Quando isso acontecer, saiba que transcendeu a mente intelectual, racional, e entrou na mente iluminada.

Quando a Luz cresce no coração ou sai da alma e permeia o corpo todo, a mente é disciplinada automaticamente. É impossível disciplinar a mente só na base da imaginação ou pela força. Seria como endireitar permanentemente o rabo curvo de um cão. Se puder viver na alma, ou mesmo no coração, a Luz da existência interior transforma a mente física numa região mais elevada ou traz a Paz tudo-preenchedora das alturas à mente física rudimentar. Quando a Paz vem à mente, ou a mente se eleva ao domínio superior da Luz, a mente que conhecemos desaparece automaticamente.

Dinamismo x letargia: meditação e atividade física é a resposta

por Adriano Passini

Dinamismo e letargia, duas palavras antagônicas que podem erguer ou destruir sua vida. Uma pessoa dinâmica é aquela que possui ânimo suficiente para colocar suas ideias e inspirações, que estão no plano mental em ação, ou mesmo ser uma pessoa mais ativa. Ao contrário disso, uma pessoa letárgica é aquela que não consegue fazer o mínimo necessário em algumas ou todas as atividades para se tornar uma pessoa melhor, vive planejando, pensando no futuro e não consegue materializar praticamente nada que é preciso para evoluir – uma pessoa estagnada.

Mas de onde vem esse o dinamismo? E a letargia? Como isso acontece? Para explicar essa situação, Sri Chinmoy descreve que nosso ser é dividido em 5 partes: o corpo, o vital, a mente, o coração e a alma. Cada parte é responsável por alguma coisa, e a letargia está associada ao corpo e ao vital.

O corpo é a parte materializada da nossa existência. Com ele conseguimos sentir e tocar as coisas. É nele que residem as outras quatro partes. Por natureza, o corpo é parte estática de nosso ser. Sem as demais partes, ele praticamente é uma união de átomos e moléculas que não tem serventia. Em resumo, o corpo quer apenas ficar parado e, se possível, dormindo. Porém, quando bem utilizado, é um forte instrumento de manifestação de Deus.

O vital é a parte responsável pelo dinamismo, porém junto com ele estão nossas emoções. Sem o vital, não somos capazes de fazer praticamente nada, é ele que nos fornece energia para realizar nossas ações. Mas, como no vital as emoções também imperam, é preciso que seja feita uma purificação para que fiquemos com a parte mais elevada que ele nos tem a oferecer.

É evidente que muitas pessoas tendem a ativar o dinamismo com mais facilidade que outras, pois elas possuem qualidades divinas que facilitam esse processo, tais como determinação e disciplina. Para ativar esse dinamismo de forma plena, é necessário muita força de vontade, porém, o método mais eficiente é através da meditação.

A meditação fará com que ativemos nosso coração, e através dele abrimos nossa porta de conexão com a alma. Isso é, a Graça Divina é capaz de entrar em nosso ser ativando o que temos de melhor. No caso do vital, ela ativa o nosso dinamismo. É por essa razão que muitos buscadores espirituais sentem vontade de praticar alguma atividade física ou então fazer alguma forma de serviço dedicado à humanidade após sua meditação diária.

O grande problema da letargia é que pode ser facilmente confundida com o cansaço. Muitas vezes as pessoas acham que estão cansadas, mas na verdade é a falta de dinamismo. Como pode alguém ficar cansado se dormiu mais de 8 horas em algumas noites e não fez nenhuma atividade física que fizesse ela ficar demasiadamente cansada? Não faz sentido algum. Em casos mais extremos, há pessoas que chegam a dormir mais de 10 horas por noite no final de semana, passam o dia vendo televisão e na internet e chegam na segunda-feira morrendo de sono.

Isso acontece porque a pessoa entrou na consciência do corpo e não ativou o seu dinamismo. Em um caso diametralmente oposto, como pode um atleta, que treinou intensamente no final de semana, chegar na segunda-feira com ânimo para enfrentar a semana? Essa pessoa ativou o dinamismo através de alguma atividade física.

O grande problema de uma pessoa que fica nesse estado de letargia é um ciclo vicioso. Ela entra na consciência do corpo, não ativa o dinamismo, e se sente cansada. Ela pensa que precisa de mais e mais descanso, mas na verdade precisa apenas quebrar esse ciclo, sair da inércia e ativar o dinamismo. Fazendo isso, ela automaticamente vai se sentir melhor e mais ativa, com muito mais ânimo.

Evidentemente para sair desta inércia, a pessoa precisa de um esforço consciente e determinação. Eu mesmo já passei por uma situação dessa, onde passei 6 dias sem atividade física alguma por ordem médica. Eu me senti cansado e sem ânimo para nada, foi horrível. No final do sexto dia, através da meditação, cheguei a conclusão que eu precisava de dinamismo e não estava cansado. Peguei minha bicicleta e pedalei durante 1 hora e meia, foi suficiente para ativar o meu dinamismo e me fazer sentir infinitamente melhor. Em resumo, eu eliminei a letargia do meu corpo e entrei em um estado de consciência muito mais dinâmico.

Muitas pessoas sabem que se praticar uma atividade física elas se sentirão muito melhores, mais ativas e felizes. Mas por que não fazem isso, por que tanta dificuldade em sair um pouco de casa e ativar o corpo? Porque sair da zona de conforto não é fácil. É preciso energia, assim como na química, para iniciar uma reação, é preciso uma energia de ativação. Essa energia nem todos têm facilidade em ativar. Mas todos nós precisamos conseguir essa energia. Algumas pessoas a tem naturalmente e outras conseguem através da meditação.

A meditação é algo realmente incrível, que pode nos levar à felicidade verdadeira, e uma das consequências dela é conseguir uma energia dinâmica que nos traz alegria. Portanto, se a meditação for feita da maneira correta, com toda certeza, o buscador conseguirá energia para realizar as mais diferentes tarefas do dia-a-dia.

15 a 30 minutos de disciplina diária para se sentir bem na semana

por Patanga Cordeiro, baseado nos escritos de Sri Chinmoy

Inspirado por meus colegas de trabalho, fiz uma lista pequena de atividades para você fazer e que, espero, faça se sentir melhor e mais feliz em alguns aspectos. Segue:

 

  • Meditar e/ou orar 3 minutos de manhã nos 7 dias da semana, depois de acordar e/ou antes de dormir;
  • Fazer exercício físico 3 dias da semana (15-30 minutos);
  • Alongamento profundo por 3 minutos, 3 dias na semana, dos músculos que sentir tensos (ex. pescoço, costas);
  • Relaxamento por 3 minutos: deitado no chão duro, de costas e olhos fechados, imagine que cada parte do corpo relaxa e se esvazia, uma por vez;
  • Ler livros impressos em papel por 15 minutos, 5 dias na semana;
  • Sorria ao se olhar no espelho. Se lembrar, sorria mais vezes durante o dia;
  • Se conseguir, tente não falar mais do que o absolutamente necessário sobre o negativo – procure se concentrar mais e gastar mais tempo nas coisas boas, e
  • Faça coisas de criança que lhe tragam um sentimento de alegria inocente – brincar, molhar-se na chuva, comer um sorvete, etc.

 

Fazendo isso, provavelmente perceberemos uma mudança leve na forma com que olhamos as coisas – o que é mais importante, o que é menos importante, coisas do dia a dia que gastam muito tempo e são desnecessárias, coisas que são importantes e gostaríamos de fazer mais, etc.

A partir daí, podemos continuar, mudar, aumentar, etc o programa de acordo com o que sentimos necessário para si.

Uma experiência de Clarice Lispector

Leia o texto abaixo logo mais, do livro Água Viva, de Clarice Lispector.

Parece que a escritora teve uma experiência transformadora, algo que acontece com buscadores conscientes e inconscientes do fato da sua busca. Leia mais sobre o despertar interior:


 

Agora – silêncio e leve espanto.

 

Porque às cinco da madrugada de hoje, 25 de julho, caí em estado de

graça.

 

Foi uma sensação súbita, mas suavíssima. A luminosidade sorria no ar:

exatamente isto. Era um suspiro do mundo. Não sei explicar assim como não se

sabe contar sobre a aurora a um cego.

É indizível o que me aconteceu em forma

de sentir: preciso depressa de tua empatia. Sinta comigo. Era uma felicidade

suprema.

Mas se você já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer.

Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece

aos que lidam com arte.

O estado de graça de que falo

não é usado para nada. é como se viesse

apenas para que se soubesse que realmente se existe e existe o mundo. Nesse

estado, além da tranqüila felicidade que

se irradia de pessoas e coisas, há uma

lucidez que só chamo de leve porque na

graça tudo é tão leve. É uma lucidez de

quem não precisa mais adivinhar: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não me

pergunte o quê, porque só posso responder do mesmo modo: sabe-se.

E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se

transforma em um dom. E se sente

que é um dom porque se está se

experimentando, em fonte direta, a dádiva de repente indubitável de existir

milagrosamente e materialmente.

 

Tudo ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor

da irradiação matemática das coisas e da lembrança de pessoas. Passa-se a

sentir que tudo que existe respira e exala um finíssimo esplendor de energia. A

verdade do mundo, porém, é impalpável.

Não é nem de longe o que mal imagino deve ser o estado de graça dos

santos. Este estado jamais

conheci e nem sequer consigo adivinhá-lo. É apenas

a graça de uma pessoa comum que a torna de súbito

real porque é comum e

humana e reconhecível.

As descobertas nesse sentido são indizíveis e incomunicáveis. E

impensáveis. É por isso que na graça eu

me mantive sentada, quieta, silenciosa.

É como em uma anunciação. Não sendo porém precedida por anjos. Mas é como

se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.

Depois lentamente saí. Não como se estivesse estado em transe – não há

nenhum transe – sai-se devagar, com

um suspiro de quem teve tudo como o

tudo que é. Também já é um suspiro de saudade. pois tendo experimentado

ganhar um corpo e uma alma, quer-se mais

e mais. Inútil querer: só vem quando

quer e espontaneamente.

Essa felicidade eu quis tornar

eterna por intermédio da objetivação da

palavra. fui logo depois procurar no dicionário a palavra beatitude que detesto

como palavra e vi que quer dizer gozo da

alma. Fala em felicidade tranqüila – eu

chamaria porém de transporte ou de

levitação. Também não gosto da

continuação no dicionário que dia:

“de quem se absorve em contemplação

mística”. Não é verdade: eu não estava

de modo algum em meditação, não houve

em mim nenhuma religiosidade. Tinha acabado de tomar café e estava

simplesmente vivendo ali sentada com

um cigarro queimando-se no cinzeiro.

Vi quando começou e me tomou. E vi quando foi se desvanecendo e

terminou. Não estou mentindo. Não tinha tomado nenhuma droga e não foi

alucinação. Eu sabia quem era

eu e quem eram os outros.

Mas agora quero ver se consigo prender o que me

aconteceu usando

palavras. Ao usá-las estarei destruindo um pouco o que senti – mas é fatal. Vou chamar o que se segue de

 

“À margem da beatitude”