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patanga cordeiro meditacaoHoje parei para escrever sobre a relação entre os esportes e a meditação, que são duas coisas que fazem parte integrante da minha vida há 13 anos e que amo muito.

A primeira coisa que pode vir à nossa mente inquisitiva ao pensar no assunto é provavelmente a questão da performance. A meditação melhora a sua performance?

Como a meditação pode melhorar a sua performance física (ou não)?

É claro que a resposta mais formal é “sim”. Aqui tem alguns exercícios e instrução sobre a mescla dos esportes e a meditação.

Agora, no meu próprio caso, farei um parêntese para explicar que eu estaria inclinado a dizer que a meditação não melhora o nosso desempenho no esporte. Explico a seguir. (Mas não se preocupem, logo falo das peripécias e recordes pessoais que a meditação me levou a encontrar no esporte – incluindo correr por 10 dias.) Escolhi também alguns aforismos do meu Mestre e de outros Mestres para agraciar o texto.

 

“Seja feita a Vossa Vontade”

A questão é que a meditação é algo em si, uma parte da nossa busca por si, pela realidade e verdade que jazem implícitas no mundo. Resultados, performance e desempenho são apenas rótulos para a expectativa humana. Assim, se eu medito para melhorar meu desempenho no esporte, talvez eu consiga – mas ficarei satisfeito de verdade com esses resultados? Ou isso só vai me levar a buscar resultados ainda maiores, até ganhar um campeonato importante ou desistir de tanto treinar? E em ambos os casos, a satisfação ainda não se vê.

É o que o Buda e outros grandes Mestres explicam como “a Meta por si só”. Se nossos desejos e impulsos (e dos outros, e suas expectativas sobre nós) forem satisfeitos na busca por uma felicidade pequena, talvez a obtenhamos, mas isso nos prenderá a elas e nos distanciará da meta da nossa alma. Já, ao escolher uma felicidade última, derradeira, as felicidades pequenas aparecerão no seu caminho naturalmente, como companheiras de viagem. Acho que é por isso que as pessoas que meditam têm uma tendência a ser mais tranquilas, mais simples, mais íntegras, etc. Não precisam correr tanto atrás de pequenas felicidades autoimpostas, ou exteriormente impostas. As felicidades e conquistas da vida vêm na hora e lugar certo, de forma natural e harmoniosa, num fluxo que começa a partir da prática espiritual de descobrir quem somos e o que precisamos. Começamos recebendo algo na nossa meditação matinal que nos mostra que há uma coisa que vale a pena buscar durante todo o dia e em todas as atividades.

E ainda há um passo a mais. “Seja feita não a minha, mas a Vossa Vontade,” http://www.meditacaosp.com/articles/meditacao-e-oracao/ é um dos dizeres mais famosos do Cristo. Uma das coisas que o aforismo exprime para mim é que nem mesmo devemos considerar as pequenas felicidades que aparecem espontaneamente no nosso caminho como algo de valia real. Existe Algo mais elevado, uma Vontade divina, e, se conseguirmos nos identificar com ela, até mesmo a tristeza e sofrimento serão felicidade plena. Num exemplo monumental, o próprio Cristo se sujeitou à crucificação sem resistir porque sabia que aquela era a Vontade do Pai; e isso é o que o fez ser o que ele é. Alguém que consegue não apenas dizer “Eu e meu Pai somos um,” mas realmente viver essa realidade – identificar-se 100%, alegre e conscientemente com a Vontade divina. A Vontade do Pai é a vontade do filho.

Para nós, como iniciantes na vida espiritual, se hoje é o dia para você perder na sua competição, e você conseguir se identificar com o Plano e aprender com a experiência, então é o melhor resultado possível que poderá ter. Não ganhará prêmio ou medalha e nem parabéns, mas encontrará uma riqueza interior – a única riqueza que é realmente nossa e permanente. Encontramos isso através da nossa oração e meditação muitas vezes.

 

Não é uma tarefa fácil

Juntar a coragem

Para se entregar consciente e devotadamente

À Vontade de Deus.

Sri Chinmoy, Twenty-Seven Thousand Aspiration-Plants, part 138, Agni Press, 1991

 

Coisas que só a meditação me fariam fazer

Agora voltamos o foco aos esportes!

Eu fiz um pouco de esportes até a adolescência, mas sem levar a sério. Quando comecei a meditar, o meu Mestre Sri Chinmoy sempre colocou muita importância na prática de esportes como parte integrante de uma vida espiritual completa (lembram da história das artes marciais e como começaram nos templos orientais como uma forma de disciplina espiritual?)

Sri Chinmoy era sempre muito diligente e nos mostrava na prática seus ensinamentos. Chegou a correr uma média de 30km por dia todos os dias, fazendo diversas maratonas, uma após a outras, e ultramaratonas. Depois, seguiu para os levantamentos de pesos absurdamente pesados. (Certa vez eu ajudei a montar um peso de 3100kg (isso mesmo, 3,1 toneladas) que ele levantou. Em dez rapazes, levamos uma meia hora só para colocar os 25 pesos individuais de 45kg na barra. Além de outras coisas!

(documentário sobre os levantamentos de peso)

Eu comecei bem devagar. No primeiro dia, mal consegui correr 400m. Mas devagarzinho fui aumentando, até conseguir completar 15km. Depois dessa de 15km, levei uns quatro dias para conseguir andar direito. Mas aí já não tinha limites – eu queria completar uma maratona (42km) e comecei a treinar para a meta de completar a distância. Corri o que podia e completei em 4h24min, nada mal para uma primeira maratona. Continuei correndo por uns sete anos, e fiz outros esportes também (outras histórias), até que…

 

Cada vez mais lento

Aí vocês pensam que meus tempos foram melhorando mais e mais, certo? É a parte irônica da história. Sempre com problemas no joelho esquerdo, na verdade correr ficou cada vez mais difícil, independente da velocidade. Ao mesmo tempo tive um problema de saúde que afeta o metabolismo, e acordava sem energia para fazer qualquer coisa até falar no telefone.

A história do joelho e mais a energia baixa foi se arrastando, e piorando na verdade. Chegou a ponto de eu não conseguir correr 10 min sem ficar tonto, sentar na calçada, etc. Para quem corria até 2h por dia, isso é uma coisa considerável. Não dá pra contar a história toda aqui, pois é longa, mas eu achei que em alguns anos ia acabar morrendo de fraqueza.

 

Uma caverna

Não tem paz.

Mesmo uma cova

Não tem paz.

Mas a coragem-Deus-entrega

Possui e é a paz.

Sri Chinmoy, Peace: God’s Heart-Home, part 2, Agni Press, 1995

 

Indo além de si

Eu estava diante dessa situação lastimável. Parecia mais um verme se retorcendo dentro de uma fruta estragada.

Eu tive indicação de um médico ayurvédico (os médicos alopatas não tinham a menor ideia ou diagnóstico do que acontecia comigo) para “gastar energia e ficar sempre ativo”. Eu tentei, mas não tinha muito como, pois já estava sem energia.

Aí algo aconteceu. Algo.

Conheci uma corredora que tinha corrido diversas vezes uma corrida de 10 dias (isso mesmo, dez dias correndo em voltas num percurso fixo), a Sri Chinmoy Self-Transcendence 10-day Race. Foi um choque para a minha mente, mas algo dentro de mim sabia intuitivamente “Eu tenho que fazer isso, se não vou morrer.” É algo irracional, certo, pois quem está mal não deve fazer esforço, certo? Nem sempre!

No meu caso, era uma questão de não me deixar limitar pelas tendências do físico. Uma questão de juntar coragem contra todas as opiniões (minhas próprias dúvidas, amigos preocupados, etc) e fazer o que eu sentia que devia fazer. Pense no que você teria me dito se fosse meu amigo e ouvisse a minha ideia, ou se fosse meu pai ou mãe. Não acredito que sem a meditação e o exemplo vivente do Mestre eu teria conseguido.

Enfim, decidi que, mesmo naquela condição, eu ia fazer a corrida. Comecei me inscrevendo para a corrida de 10 dias e também para uma ultramaratona de 24h. Por mais estranho que pareça, eu não conseguia correr 10 minutos em casa antes, até o dia da corrida de 24h, acabei fazendo 12h lá. Não completei por que choveu, todas as minhas roupas molharam e, sendo num bosque ficou tão frio que eu comecei a tremer em espasmos. (“Marinheiro de primeira viagem). Mas foi bom porque já sabia o que esperar e como me preparar para a corrida de 10 dias.

A prova seguinte foi de 75km, com subidas e descidas e curvas em cotovelo, onde corri sem enormes problemas e completei a prova em 10h (é um ritmo lento, mas uma enorme vitória para quem não tinha joelho ou energia para correr 10 minutos), sentindo que poderia correr por mais tempo se fosse preciso. Inclusive, para terminar a prova, nas últimas horas eu corria mais rápido do que nas sete primeiras horas! E quão mais rápido eu corria, menos cansaço eu tinha, menos fome sentia e menos a dor me incomodava! Mais histórias dessa corrida:

Viram a mágica? Estava tudo dentro de mim! Dor e alegria, fraqueza e coragem, tudo! Agora eu tinha percebido que essa experiência do joelho e da falta de energia tinham vindo para me mostrar que eu tinha uma força dentro que não conhecia, que estava dormente, indisponível!

Continuei treinando, em alguns fins de semana correndo 12 a 16 horas para valer como treino para a corrida de 10 dias.

Essa corrida foi provavelmente uma das coisas mais preciosas que já descobri.

 

Correndo 10 dias – Infernos e Campos Elíseos

 

Quando chegou a corrida de 10 dias, eu mal podia esperar para começar.

Escrevi um relato mais completo aqui para quem interessar, com fotos e comentários sobre o que aconteceu comigo em cada dia da corrida.

Mas posso contar que no segundo dia, após umas 36h, eu queria desistir. Fui dormir mais um pouco e tomar uma ducha, mas a dor era muito grande para me manter emocionalmente estável. Tudo do umbigo para baixo ardia em inflamações. Tentei pensar que “vou dormir e depois eu vejo se desisto ou continuo”. Eu não imaginava como é que alguém gostaria de fazer aquilo – pois havia corredores que já faziam esse tipo de corridas por mais de 30 anos!

A corrida é como um campo de batalha da sua vida; mesmo ferido, você sai e volta a lutar, pois precisa. Depois de uns quatro dias correndo, o corpo começa a se adaptar, a dor fica mais suportável em geral e você consegue correr mais solto, mais rápido. (Isso mesmo, depois de quatro dias correndo, a sua velocidade volta um pouco). Diversas experiências interiores e exteriores acontecem todos os dias. Uma das mais bonitas da minha primeira corrida foi no sétimo dia. Eu estava tão feliz, tão satisfeito! Tudo era lindo. Eu conseguia ver mais cores do que no dia a dia. Um pássaro preto me mostrava nas suas penas que na verdade elas guardavam um arco-íris de cores. O céu, o lago, a relva verde e as flores de grama, tudo era… um paraíso! Se algum dia eu tive um vislumbre do que é um plano elevado de existência, foi naquela tarde. Só posso trazer à memória o conceito grego de “Campos Elíseos” – um lugar onde tudo é perfeito, a morada dos deuses. Caro leitor, como posso explicar mais? É como sonhar acordado, se beliscar e descobrir que a realidade é sonho e o sonho é realidade, e que a beleza dos dois se somam naquele ponto – o ponto exato onde você está agora.

 

Depois da corrida

Eu retornei mais três vezes em anos consecutivos para fazer novamente a corrida! E já estou inscrito para a do ano que vem!

Minha saúde melhorou muito – na verdade, ocorreu a inversão do processo. Durante os anos que foi piorando, a partir da corrida, ela foi melhorando em saltos! A dor no joelho é uma companheira ocasional, uma conhecida que pode até exigir a minha atenção, mas que também é um lembrete diário da capacidade ilimitada que temos. E que as experiências que temos são todas para o nosso bem. Só depende de encararmos elas a partir do ângulo correto.

 

Filmes recomendados sobre a meditação e sua relação com esportes

Se quiserem ver mais sobre a meditação e esportes, tem um filme feito por uma cineasta americana com uma discípula de Sri Chinmoy que correu a maior corrida do mundo, de 5000km, com tempo de corte de 52 dias. Chama-se “O espírito de uma corredora.”

Outro filme ali que posso recomendar é “O quebrador de recordes”, com Ashrita Furman, que é um quebrador de recordes do Guinness e praticante da meditação há 40 anos. Inclusive um dos seus recordes é o de ser o detentor do maior número de recordes mundiais.

 

Minha coragem

Minha coragem-corpo

Ousa morrer.

 

Minha coragem-alma

Ousa viver.

 

Minha coragem-realização

Ousa se entregar

Alegremente e

Incondicionalmente

À Vontade-Satisfação de Deus.

Sri Chinmoy, Transcendence-Perfection, Agni Press, 1975