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A vida espiritual: a vida interior

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A vida espiritual: a vida interior

texto de Sri Chinmoy, do livro As Asas da Alegria

Vivendo em Alegria

 

 

A verdadeira alegria interior é autocriada,

Ela não depende de circunstâncias exteriores.

Um rio flui em você e através de você,

Carregando a mensagem da alegria,

E essa alegria divina é o único propósito da vida.

 

 

Somos todos buscadores, e nossa meta é a mesma: encontrar paz interior, luz e alegria, nos tornarmos inseparavelmente unos com nossa Fonte e termos vidas plenas de verdadeira satisfação.

Viver em alegria é viver a vida interior. Tal é a vida que leva à auto-realização. Auto-realização é a realização de Deus, pois Deus não é nada senão a Divindade que jaz em cada um de nós, esperando ser descoberta e revelada. Também podemos nos referir a Deus como o Piloto Interior ou o Supremo. Todavia, não importa o termo escolhido, ele sempre simbolizará o Altíssimo dentro de nós, Aquele que é a meta derradeira de nossa busca espiritual.

Apenas ao nutrir a vida interior é que a vida exterior terá um significado real. Três vezes ao dia alimentamos o corpo, sem falta. Mas há dentro de nós uma criança divina chamada alma, e não encontramos tempo para alimentá-la. A alma é a representante consciente de Deus em nós. Porém, a não ser e até que a criança-alma seja satisfeita, nunca estaremos satisfeitos em nossa vida exterior.

Como estabelecer o elo entre a vida interior e a vida exterior? Esses dois mundos podem fácil e conscientemente ser unidos ao se conhecer a arte divina da meditação. Praticando a meditação, cada momento passa a ser uma oportunidade dourada para deixar de lado a tristeza, frustração, raiva, medo e outras qualidades negativas e trazer à tona as qualidades divinas do mundo interior: amor, paz, alegria e luz.

Uma pessoa espiritual deve ser normal, uma pessoa saudável. Para alcançar Deus, uma pessoa espiritual deve ser divinamente prática em suas atividades diárias. Na praticidade e naturalidade divina compartilhamos nossa riqueza interior, sentindo a motivação divina por trás de cada ação e partilhando o resultado com os outros. A espiritualidade não nega a vida exterior. A vida exterior deve, sim, ser a manifestação da vida divina em nós.

 

Consciência: A Centelha de Vida

 

Consciência é a centelha de vida que associa cada um de nós à Vida Universal. É o elo entre Deus e o homem, entre o Céu e a Terra. Sem a consciência, tudo é um deserto árido. Ao se dirigir para um lugar escuro, leva-se uma lanterna para saber aonde se vai e onde se pisa. Se queremos conhecer sobre nossa vida ainda não-iluminada, precisamos da ajuda da consciência.

A consciência é como uma escada: é possível subir e descer os vários degraus. Meditando profundamente, cada plano de consciência se mostra visível. O primeiro degrau é o corpo físico. O segundo, o vital. Vital é um termo utilizado na filosofia indiana, e lembra qualidades emocionais, agressivas e dinâmicas. O terceiro degrau é a mente, e acima da mente está o coração espiritual. É nele que é possível sentir a influência e existência da alma. A alma é a sempre-reluzente mensageira de Deus em nosso interior. Não conhecendo nascimento, decadência ou morte, ela é eterna, imortal. A alma veio diretamente de Deus, está sempre em contato com Deus e a Deus retornará.

Antes de assumir a encarnação humana, a alma recebe uma mensagem interior sobre o seu propósito divino na Terra. Ela tem plena consciência de sua missão, muito embora, durante nossa vida, as atividades da mente física possam encobrir a inspiração divina da alma e seu verdadeiro propósito. Então sua missão não consegue se manifestar. Apenas se aspirarmos com a mente, coração e alma, poderemos conhecer o verdadeiro motivo de nossa existência aqui na Terra.

 

 

A minha alma é responsável por meus feitos reluzentes.

O meu coração é responsável por meus sentimentos ascendentes.

A minha mente é responsável por meus pensamentos transformadores.

O meu vital é responsável por minha energia fluente.

O meu corpo é responsável por minha vida batalhadora.

 

O Choro Interior

 

A aspiração é o clamor ascendente, o choro que se eleva no coração. Entramos na consciência divina através do choro interior. Esse clamor não é por nome e fama; é pela completa, incondicional e ilimitada unicidade com Deus, o Piloto Interior de nosso barco-vida.

Algumas pessoas são completamente cegas acerca da existência do Piloto Interior. Outras sabem de Sua existência, mas não desejam qualquer ligação ou comunhão com Ele. Um buscador sincero sente a necessidade de constante união com o Piloto Interior. Ele não se satisfaz apenas em saber da existência de Deus em seu interior. O buscador deseja estar na consciência de Deus e comungar com Ele a cada momento de seu dia.

É necessário fazer de Deus uma realidade viva em nosso cotidiano. Temos de sentir que a Sua presença é de importância primordial. Se deixamos de comer diariamente, mal-nutrimos nossos corpos. Igualmente, precisamos sentir que, se deixamos de orar e meditar diariamente, estamos abandonando à miséria nossa vida espiritual. Aspirando com as lágrimas do coração notamos que Deus vem até nós, descendo das alturas. E é como duas pessoas que se encontram: uma está no primeiro andar e a outra no terceiro. Nós subimos ao segundo andar e Deus desce do terceiro. Assim nos encontramos e satisfazemos um ao outro.

A escada para o segundo piso é criada pelo choro do coração. Esse é o clamor da aspiração, que não se assemelha com o derramar de lágrimas de quando se faz algo errado. O coração chora e anseia como uma chama ascendente, que arde em direção às alturas, sempre subindo. E Deus desce com Sua Graça, como um rio segundo a correnteza. Quando a aspiração e a Graça se encontram, experimenta-se a satisfação divina da união com Deus.

 

Não, não é possível

Que qualquer choro interior

Permaneça desatendido.

 

Tornando-se Um Oleiro Espiritual

 

Ao aceitar a vida espiritual no verdadeiro sentido da palavra, não se renuncia ao mundo e nem se tenta fugir dele. Nós abraçamos o mundo e buscamos a sua satisfação de uma maneira divina, da maneira que Deus escolheu. Não concordo com aqueles que dizem que Deus está no Céu e em nenhum outro lugar. Deus está no Céu, assim como, também, Deus está na Terra. O Criador não pode ser separado de Sua criação. Este nosso mundo é a Sua obra, e Ele está aqui, vivente dentro de todas as coisas.

O mundo deve ser aceito como ele é agora. Se algo não é aceito, como poderá ser transformado? Se o oleiro não toca o bloco de argila, como fará dele uma peça de cerâmica? Se sua meta é fazer um jarro ou pote, ele deve tocar a argila. Essa argila é o mundo. Temos de transformar a face do mundo através de nossa dedicação à divindade na humanidade.

Não pense que ao orar a Deus ou meditar em Deus você está a cuidar apenas de si mesmo e não do resto da humanidade. Observando o pé da árvore-criação você verá que Deus é a raiz. Se oferecer água à raiz, toda a árvore-criação crescerá conforme a Lei divina. O cuidado que você demonstrar ao mundo, a Deus, nutrirá todos os ramos, que viverão de acordo com a Perfeição de Deus.

 

Comece Aqui e Agora

 

Para tornar-se um com Deus, é necessário iniciar a jornada espiritual conscientemente. Aqui e agora é o lema da alma. Se você ainda não começou, sua alma quer que você comece sua jornada espiritual neste exato momento. Caso ainda possua dúvidas acerca da existência de Deus, não faz mal. Duvide o quanto quiser. Por fim, você se cansará de duvidar Dele. Caso duvide da existência de paz interior e beatitude, igualmente, farte-se de duvidar. Mesmo guardando dúvidas a respeito da vida interior ou realidade de Deus, de todo o modo o melhor é começar sua jornada agora mesmo.

Se tiver curiosidade por saber o que é a espiritualidade, você pode aceitá-la em sua curiosidade. Veja se ela é apenas superficialmente fascinante ou se é algo profundo e vasto, algo a que você poderia devotar toda a sua vida. Você estará começando com a curiosidade, mas logo ela se transformará em aspiração verdadeira. Igualmente, se entrar para a vida espiritual apenas porque outros o fizeram, também isso é correto. Se perceber que a vida de alguém passa a ser feliz e cheia de paz após sua aceitação da vida espiritual, não há nada de errado em imitá-lo.

Gostaria de contar uma das histórias prediletas do grande Mestre espiritual Sri Ramakrishna. Um ladrão entrou no palácio à meia-noite e ouviu a conversa entre o rei e a rainha. O rei estava dizendo: “Eu gostaria que nossa filha mais nova se casasse com um homem santo, para que tivesse alguma paz. Nossas outras filhas casaram-se com reis e generais, mas em suas vidas só há dias de tristeza. Os homens santos possuem uma vida de paz, e ao casar-se com um deles, também ela terá uma vida de paz. Amanhã cedo enviarei meus ministros às margens do Ganges, onde muitos santos meditam. Estou certo de que um deles há de se casar com nossa filha.”

O ladrão escutou a conversa e pensou consigo: “Deus meu, um monge pobre há de ganhar a princesa? Eu meditarei junto aos monges. Quem sabe, talvez eu seja escolhido. Hoje eu roubo para ganhar dinheiro, mas se a princesa agradar-se de mim eu ficarei rico da noite para o dia. Serei inundado de prosperidade material.”

Na manhã seguinte, vestido como um santo, o ladrão foi ao Ganges e passou a meditar com os monges. Logo os ministros do rei chegaram e abordaram cada um deles, procurando alguém que casaria com a princesa. Os monges ficaram furiosos. “Estamos clamando por luz infinita, verdade infinita e alegria infinita, e vocês querem nos prender novamente a este mundo? Não queremos a vida materialista e nem riquezas materiais!”, exclamavam eles. E os ministros foram censurados e repreendidos pelos monges. Estes não queriam saber da princesa: eles buscavam apenas a Verdade mais elevada e a riqueza interior.

Assim, um a um, todos os monges deram suas negativas. Por fim, quando os ministros chegaram ao ladrão, este aquiesceu em aceitar a filha do rei. Os ministros retornaram ao rei e narraram toda a história. Ao ouvir que um dos monges demonstrou interesse na princesa, o rei ficou muitíssimo alegre. “Amanhã levarei minha filha às margens do Ganges, onde oram e meditam os homens santos”, disse ele então.

Durante a noite, um pensamento divino se infiltrou na mente do ladrão. Ele pensou: “Estou apenas fingindo ser um homem santo. Mas, apenas fingindo, já encontrei uma princesa e muitas riquezas. Se eu sinceramente me tornar um monge, estou certo de que obterei poder, luz, beatitude e paz infinitas, assim como aqueles monges verdadeiros receberão de Deus um dia. Por que deveria eu ficar apegado a essa riqueza material finita quando tenho a oportunidade de receber a infinita luz, felicidade e poder da infinita riqueza de Deus?”

E assim o ladrão mudou de idéia durante a noite. Quando o rei veio na manhã seguinte, o ladrão não demonstrou respeito algum. Inflamando-se, exclamou: “Ó rei, não me prenda a este mundo material. Eu quero Deus e Deus somente. Eu não preciso da sua filha.” O pobre rei voltou ao seu palácio, e o ladrão se tornou um sincero homem santo.

A história deixa claro que a qualquer momento podemos iniciar nossa jornada espiritual. O ladrão começou imitando. Mas obteve inspiração ao ver os verdadeiros buscadores clamando sinceramente por Deus e Deus somente. E da inspiração ele seguiu para a aspiração. Já não mais estava satisfeito com seu desejo de obter dinheiro e riquezas materiais, pois sentiu que havia algo ainda mais satisfatório a ser conquistado.

Se você ainda acalenta dúvidas ou curiosidade, comece com dúvida, comece com curiosidade. Mas comece! Passo a passo, você será capaz de marchar em direção à sua meta. Deus está sempre ansioso por ter você. Você pode não estar ansioso por tê-Lo, mas Deus o eterno Pai, Deus a eterna Mãe está clamando por você. O necessário é tomar a decisão de que se quer Deus. Se você realmente quer Deus, comece no ponto em que se encontra, aqui e agora. A meta de consciente unicidade com Deus a infinita Luz e Verdade será sua.

 

O choro de seu coração é um verdadeiro tesouro.

Ele voa como uma águia

Para alcançar a mais elevada meta de sua alma puríssima.

A vida espiritual

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