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Aspiração-Evereste: livro de palestras em prosa poética

Aspiração-Evereste – livro recomendado

Estas palestras inspiradas, da autoria de alguém que chegou ao cume, são seguramente o melhor roteiro para aqueles que também querem subir ao mais alto, seguir em frente até ao mais longínquo e, interiormente, até ao mais profundo. Elas não são dirigidas à mente mas sim ao coração e à alma daquele que procura; têm a beleza da poesia, a clareza da prosa e profundidade das Escrituras e, como o melhor destas três formas de expressão, destinam-se a ser lidas, relidas, estudadas, memorizadas e frequentemente lembradas, pois as suas imortais flores-mensagem nunca murcham, antes crescem e permanentemente se expandem, brilham e florescem juntamente com o aprofundar e alargar da consciência interior do leitor que aspira.

Onde encontrar

Yoga, meditação e a arte de viver: A Aventura da Vida – livro recomendado

yoga livroYoga, meditação e a arte de viver: A Aventura da Vida

Hoje em dia é o livro que eu mais recomendo para quem está num processo de auto descoberta. (outros livros aqui) O livro passa por diversos aspectos da nossa busca e tem respostas muito inspiradoras! Enfim, viver é uma arte!

Um lindo livro, repleto de fotos e desenhos, feito pela Madal Bal Studio na Europa. Há opção de compra em p/b e colorido.

A vida, como qualquer aventura, possui desafios. Para superá-los e encontrar paz, buscamos soluções práticas e duradouras. Com seleções dos escritos de Sri Chinmoy sobre os vários aspectos do nosso dia a dia, este livro nos introduz a um estilo de vida espiritual moderno, focando particularmente na saúde, dieta, esporte, vida em família e trabalho. Há um mundo nosso mais vasto: o mundo da alma, que inspira e preenche a nossa vida exterior. Que possamos abrir nossos corações. Uma nova aventura chama…

Você encontra ele a venda na editora Clube de Autores

Capítulos do livro Yoga, meditação e a arte de viver:

  1. Liberdade e paz
  2. O que é yoga?
  3. Yoga e a vida material
  4. O caminho e os passos do yoga
  5. Religião, espiritualidade e yoga
  6. Deus e os mundos superiores
  7. Chakras, poder oculto e kundalini yoga
  8. Mestres verdadeiros e mestres falsos
  9. Espiritualidade e sociedade
  10. O fim do mundo, forças malignas e a origem da humanidade
  11. Meditação
  12. Alimentação, saúde e esporte
  13. Vida familiar
  14. Meditação no trabalho

Livro Bhagavad Gita – capítulo 17 – Abstinência e Renúncia

livro sagrado do hinduismo pdf bhagavad gitado livro de Sri Chinmoy, Comentários sobre o Bhagavad Gita


 

Livro Bhagavad Gita – capítulo 17 – Abstinência e Renúncia

 

Lenta, gradual e exitosamente estamos agora escalando o último degrau da escada-Gita. Aqui quase teremos a quintessência da inteira Canção.

Arjuna deseja saber sobre a natureza da abstinência da ação, sobre a natureza de renunciar os resultados da ação e também a diferença entre essas duas.

O Senhor lhe diz que sannyasa é abstenção da ação desejo-instigada, e que tyaga é a renúncia dos frutos da ação.

Sannyasa e sankhya yoga são idênticos, assim como tyaga e karma yoga são idênticos.

Para a nossa mais ampla surpresa, mesmo hoje, ainda há na Índia um credo cego que diz que uma alma realizada não age ou não consegue agir, ou até mesmo não deve agir no plano físico. Ora, a pobre alma realizada tem de separar sua existência das atividades do mundo! Se tal é o caso, então eu acredito que a auto-realização nada é, senão uma severa punição, uma conquista indesejável, carregada com o difícil peso da vazia frustração.

Seguramente, uma pessoa realizada é aquela que se libertou das armadilhas das impetuosas amarras. Se ela não agir com seu corpo, mente, coração e alma no mundo, para o mundo, e se ela não auxiliar os buscadores no Caminho, então quem mais seria competente para liderar a humanidade aspirante, que chora e labuta, à sua Meta destinada?

Para a libertação, a renúncia é essencial. Renúncia não quer dizer a extinção do corpo físico, dos sentidos e da consciência humana. A renúncia não significa que deve-se estar milhões de milhas distante das atividades do mundo. A renúncia não diz que o mundo é o paraíso dos tolos. A verdadeira renúncia não apenas vive no mundo, mas também divinamente preenche a vida do mundo.

O Upanishad nos ensinou: “Desfrute através da renúncia.” (Isopanishad 1) Tentemos fazê-lo. Certamente teremos êxito.

A ação correta é boa. A ação sem desejos é melhor. A dedicação dos frutos ao Senhor é o máximo. A essa dedicação chamamos verdadeira tyaga.

Alguns professores espirituais dizem que a ação é um mal desnecessário, que a ação leva o homem à limitação perpétua. Dessa forma, eles violentamente e orgulhosamente afirmam que toda a ação, sem exceção, deve ser impiedosamente evitada. Sri Krishna graciosamente ilumina sua tolice. Ele diz que yajña (sacrifício), dana (auto-doação) e tapas (auto-disciplina) não devem ser evitados, pois yajña, dana e tapas são verdadeiros purificadores. É claro que mesmo essas ações devem ser realizadas sem o menor apego.

A renúncia do dever para com a humanidade nunca é um ato de realização espiritual ou mesmo um ato de despertar espiritual. O deleite da liberdade não é para aquele que abandona o dever por medo de desagrado físico ou sofrimento mental. Sua falsa e absurda antecipação o levarão ao mundo da ignorância, onde ele será obrigado a ceiar com o medo, ansiedade e desespero.

Aquele é um homem de verdadeira renúncia, o qual nem odeia uma ação desagradável, quando o dever a exige, e nem está ávido a fazer apenas boas e agradáveis ações.

O Senhor diz: “Renunciar completamente toda a ação não é possível para uma alma encarnada. Aquele que renuncia os frutos da ação é o verdadeiro renunciante.” (18.11)

O Gita é a revelação da espiritualidade. Cedo ou tarde, todos devem buscar a espiritualidade. Não é preciso e nem necessário qualquer compulsão. Forçar outros a aceitarem a espiritualidade é um ato de estupenda ignorância. Um verdadeiro Guru sabe que seu papel não é de Comandante-Geral. Ele nunca ordena, nem mesmo seus mais queridos discípulos. Ele apenas desperta e ilumina sua consciência, para que possam enxergar a verdade, sentir a verdade, seguir a verdade e, finalmente, tornar-se a verdade.

De numerosas maneiras Sri Krishna concedeu a mais inspiradora sabedoria a Arjuna. Ao fim, ele diz: “Arjuna, tendo refletido completamente na sabedoria, aja como quiser.” (18.63)

Algo mais Sri Krishna tem a dizer: “Arjuna, Minha Palavra suprema, o Meu mais íntimo segredo, Eu lhe conto. A você Eu revelo o segredo do Meu coração, pois você é sempre querido por Mim. Ofereça-Me o seu amor. Devote-se a Mim. Curve-se a Mim. Dê-Me o seu coração. Você certamente virá até Mim. Isso eu lhe prometo. Arjuna, você é querido por Mim. Entregue todos os deveres terrenos a Mim. Procure em Mim o seu único refúgio. Não tema, não se aflija, pois de todos os pecados Eu o libertarei.” (18.64-66)*

* O verso 18.66 do Bhagavad Gita (começando aqui com “entregue todos…” é um dos três mantras ou ensinamentos essenciais dos Srivaishnavas (escola Vishishtadvaita). É chamado de charamasloka, o ‘verso supremo’.

A verdade deve ser oferecida apenas aos buscadores mais sinceros. Sri Krishna docemente acautela Arjuna de que a verdade que aprendeu com Ele não deve ser oferecida a um homem que não possui fé, devoção e auto-disciplina. Não é para aquele cuja vida é borrada de blasfêmia e pouco caso a Verdade suprema de Sri Krishna.

Agora Sri Krishna quer saber se Arjuna O compreendeu, a Sua revelação. Ele também quer saber se Arjuna está livre do domínio da desilusão e das amarras da ignorância.

“Krishna, meu único Salvador, finda está a minha desilusão. Destruída está minha ilusão. Sabedoria eu recebi. A Tua Graça é responsável, a Tua Graça suprema. Firme estou, livre de dúvidas. Minhas dúvidas não mais existem. Estou a Teu comando. Imploro por Tua ordem. Estou pronto. Eu agirei.” (18.73)

A alma humana gloriosamente conseguiu esvaziar toda a sua noite-ignorância na Alma Transcendental de Luz eterna. A Alma Transcendental cantou triunfantemente a Canção da Infinidade, Eternidade e Imortalidade no coração aspirante da consciência humana.

 

Vitória, vitória ao coração que chora e sangra do finito. Vitória, vitória à Enchente-Compaixão e ao Céu-Iluminação do Infinito.

A vitória do mundo brilha no interior! A vitória do mundo cresce no exterior!

Vitória alcançada. Vitória realizada. Vitória revelada. Vitória manifestada.

Livro Bhagavad Gita – capítulo 16 – As Divinas Forças e as Forças Não-Divinas

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Livro Bhagavad Gita – capítulo 16 – As Divinas Forças e as Forças Não-Divinas

 

O mundo, o medo e as amarras compartilham da maior intimidade. Aquele que pensa em Deus é, por fim, amado pelo mundo. Aquele que ama Deus não teme. As amarras ele transcende.

Aquele que sente que os prazeres dos sentidos e a alegria suprema são a mesma coisa está completamente enganado. Auto-indulgência e a Meta da vida nunca podem e nunca caminharão juntas.

Para ver Deus, deve-se ser prático, absolutamente prático, tanto no mundo da realização quanto no mundo da manifestação. Ninguém pode ser mais prático do que aquele que é imbuído de qualidades espirituais. Sua vida é guiada, protegida e iluminada pelas forças divinas.

O medo teme permanecer com aquele que possui fé perfeita em Deus. Seu coração é pureza. Sua mente é liberdade. Duplicidade? Ele não sabe o que isso é. O seu amor ele utiliza para amar a humanidade. Ele só espera amor em retorno se tal for a Vontade de Deus. Seu serviço ele oferece ao Supremo na humanidade, tendo destruído completamente a raiz da árvore-expectativa – não, tentação – com o afiado machado da sua luz-sabedoria.

O deleite da devoção e o silêncio da meditação constantemente vivem nele. A violência é fraca demais para adentrar seu forte de pensamento, palavra e ação.

A mais pura sinceridade ele tem. O mais poderoso auto-sacrifício ele é.

Ele não veste uma coroa feita pelo homem, mas uma coroa feita por Deus, a qual o próprio Deus valoriza. O nome dessa coroa divina é humildade.

Aquele que é devorado pelas forças não-divinas não é apenas não-espiritual, mas também imprático no mais puro significado da palavra. Nunca ele pode ficar sozinho, mesmo que queira. A vaidade, a raiva, a ostentação e o ego o acordarão de seu sono e o compelirão a dançar com eles. Secretamente, mas rapidamente, a ignorância chega e junta-se à sua dança, prosseguindo, triunfante e alegre, a ensiná-los a dança da destruição.

Seu ego ele utiliza para comprar o mundo. Sua raiva ele utiliza para enfraquecer e punir o mundo. Sua vaidade e ostentação ele utiliza para conquistar o mundo. Conscientemente ele se oferece à glorificação dos prazeres dos sentidos. Ora, ele mesmo fracassa em contar seus projetos imaginários, pois são incontáveis, inúmeros. A coisa que ele tem como absolutamente sua é a auto-lisonja. E isso é o que ele infalivelmente é.

Ele diz à caridade e filantropia: “Vejam, estou enviando vocês duas ao mundo. Lembrem-se de que não estou lhes dando o mundo. Tragam de volta para mim fama e renome. Retornem em breve!”

A caridade e a filantropia humildemente ouvem a sua ordem. Elas correm em direção ao mundo. Elas tocam o mundo. Elas alimentam o mundo. Elas não esquecem de trazer fama e renome do mundo para o seu mestre. O mestre recebe seu cobiçado prêmio: fama e renome. Mas ora, para a sua maior surpresa, a futilidade segue sua fama e renome.

Sua vida é o hífen entre o pecado e o inferno. O que é o pecado? O pecado é o sabor da ignorância imperfeita. O que é o inferno? O inferno é a impiedosa tortura dos desejos insatisfeitos e o caloroso abraço da ignorância satisfeita.

Primeiro, o buscador deve encarar a ignorância e o conhecimento separadamente. Mais tarde, ele realiza que tanto na ignorância quanto no conhecimento ‘Aquilo’ existe. Aticemos nossa chama-aspiração com o devotado conhecimento do Isha Upanishad.

 

Avidyaya Mrityum Tirtha… (Isopanishad 11))

“Através da ignorância, ele cruza para além da morte; pelo conhecimento, ele desfruta da Imortalidade.”

 

O capítulo chega a um fim com a palavra shastras (escrituras) Os shastras não devem ser ridicularizados. Os shastras são as conquistas exteriores das experiências e realizações interiores dos visionários da Verdade. A meta suprema não é para aqueles que menosprezam as realizações e experiências espirituais dos visionários do passado venerável. Aqueles que sentem, por conta dos seus impulsos vitais, que podem praticar meditação e aprender os segredos da disciplina interior sozinhos estão cometendo um erro do tamanho dos Himalaias. Orientação pessoal é imperativa.

É fácil dizer: “Eu sigo meu próprio caminho.” Mais fácil ainda é se enganar. O mais fácil de tudo é matar de fome a divindade interior que tenta se revelar e manifestar.

O Professor ensina ao aluno: “Ó meu Arjuna, siga as shastras.” (cf 16.24)

 

 

 

 

A Tríplice Fé

 

 

 

O homem exterior é aquilo que a sua fé interior é. Todas as nossas atividades físicas, vitais e mentais possuem uma fonte comum. O nome dessa fonte é a fé. Com a nossa fé podemos criar, controlar, conquistar e transformar nosso destino. Em verdade, o que inconscientemente chamamos de fé humana nada é senão a vontade divina em nós e por nós.

O que um homem sáttvico faz com sua fé luminosa? Ele usa sua fé para invocar e adorar o Supremo. O que um homem rájasico faz com sua fé cheia de paixão? Ele a utiliza para adorar e satisfazer as divindades. O que um homem tamásico faz com sua fé tenebrosa? Ele adora os espíritos e fantasmas insatisfeitos, famintos, obscuros, impuros e terra-limitados.

Dizem que, no Ocidente, a comida pouco tem a ver com a fé. Na Índia, o elo entre o alimento e a fé é quase inseparável. Nossos videntes Upanishádicos declamaram: Annam Brahma – “O alimento é Brahman.” (Taittiriyopanishad III.2)

Um homem sáttvico ingere os alimentos que são frescos, puros e tranquilizantes, para que possa ter energia, saúde, alegria e uma vida longa.

Alimentos azedos, salgados e excessivamente apimentados são os preferidos de um homem rajásico. A doença o captura. A dor o tortura. Um homem tamásico também tem de comer, afinal. Ele come avidamente os alimentos que são velhos, sem gosto, impuros e repugnantes. O resultado da sua alimentação pode ser melhor sentido do que descrito.

Austeridade não quer dizer tortura física, longe disso. A mortificação da carne é algo de que apenas uma natureza diabólica poderia desfrutar. Deus, o Piedoso, não exige nossa tortura física. Ele quer que tenhamos a luz devotada da sabedoria, nada mais e nada menos.

Austeridade quer dizer um corpo dedicado, uma mente pura, um coração amoroso e uma alma desperta.

A austeridade exterior cresce no fértil solo da simplicidade, sinceridade e pureza. A austeridade interior cresce no fecundo solo da serenidade, tranquilidade e equanimidade.

A austeridade sáttvica não deseja recompensa. Ganhos, honra e fama são esperados e exigidos pela austeridade rajásica. Auto-imolação ou a destruição dos outros é o que a austeridade tamásica quer e valoriza.

Um buscador da Verdade transcendental e a forças-sexo nunca podem correr lado a lado. O buscador trilhando o caminho da auto-descoberta e Deus-descoberta deve conhecer o que é o verdadeiro celibato. Citando Krishnaprem:

 

“Um celibato neurótico, com a dita mente inconsciente repleta de sexo reprimido, gerando um caos de fantasia mais ou menos disfarçada, é a pior condição para alguém que busca a vida interior se encontrar. Tal condição pode, assim como uma fraqueza física extrema, causar estranhas experiências e visões, mas efetivamente prevenirá qualquer seguimento real no Caminho. O sexo será transcendido. Ele não pode ser suprimido… impunemente.”[1]

 

O capítulo encerra devotadamente com o Brahman. Brahman é divinamente designado pelas três palavras alma-comoventes: Aum tat sat. (17.23)

Aum é o supremo símbolo místico. Aum é o verdadeiro nome de Deus. O Aum está na manifestação cósmica. Além da manifestação, no mais longínquo além, está o Aum.

Tat significa ‘Aquilo’, o Eterno Inominável. Acima de todos os atributos, majestoso ‘Aquilo’ se sustenta.

Sat é a Realidade, a Verdade infinita.

Devemos entoar Aum e então começar a realizar os deveres divinos da nossa vida.

Devemos entoar Tat e então oferecer à humanidade todas as nossas conquistas energizadoras e preenchedoras.

Devemos entoar Sat e então oferecer a Deus o que interiormente e exteriormente somos, nossa própria existência.

[1] *Sri Krishna Prem, The Yoga of the Bhagavad Gita, London, 1951, p.173.

Livro Bhagavad Gita – capítulo 10 – A Perfeição Divina e Universal

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Livro Bhagavad Gita – capítulo 10 – A Perfeição Divina e Universal

 

O que existe dentro de nós é perfeição. O que existe fora de nós é imperfeição. O mundo exterior pode ter perfeição apenas quando o mundo interior inspira, guia, molda e dá forma ao mundo exterior.

O ontem sonhou que o hoje seria a perfeição. O hoje sonha que o amanhã será a perfeição. A perfeição já alcançada desvanece numa insignificante imperfeição diante do nascimento do futuro vindouro.

A perfeição cresce. Ela tem agido assim desde o início da criação. Diferente de nós, Deus possui um Sonho: a perfeita Perfeição. Essa perfeita Perfeição deve reluzir nos corações aspirantes da individualidade e universalidade, para que a Realidade absoluta possa ser a completa expressão da Visão Cósmica.

Todos são queridos para Deus. Mas a mais doce e mais íntima relação existe apenas entre um devoto e o Senhor. Um verdadeiro devoto adora o Senhor sem a preocupação dos desejos. O Senhor o abençoa, não apenas sem reservas, mas também incondicionalmente. O que um devoto precisa é da força determinada do seu coração. Uma vez encontrada, sua auto-realização não permanecerá distante.

Compreender a verdade é uma coisa. Acreditar nela é outra coisa. Não compreender a verdade não é um crime – longe disso. Mas não acreditar na verdade não é menos do que um pecado imperdoável. Uma criança não compreende a vasta sabedoria de seu pai. Apesar disso, a fé que possui na sabedoria de seu pai é espontânea e genuína.

Sri Krishna é a sabedoria absoluta. Ele é a glória suprema. Ninguém compreende a sua glória, nem mesmo os deuses. Arjuna pode não compreender Krishna, mas sua fé implícita em Krishna fala por ele: “Ó Krishna, Tu és o Senhor dos Senhores. Supremo Tu és. Nisso eu acredito. Nem os deuses e nem os demônios compreendem tuas misteriosas manifestações. A fonte de todos os seres Tu és. Tu és conhecido por Ti somente.” (10.12-15)

 

Se a coisa acreditada é incrível, também é incrível que o incrível seja assim acreditado. – São Agostinho

 

Acreditar é a completa liberdade da mente. Acredidar é a plena independência do coração.

Krishna torna claro a Arjuna que sua glória divina pode ser elucidada e demonstrada, mas nunca exaurida. O Universo em sua totalidade é apenas uma pequena centelha de sua infinita magnitude.

Pandavam Dhananjaya, diz Krishna. “Dentre os Pandavas, eu sou Dhananjaya.” (10.37) Dhananjaya é um cognome de Arjuna. Cada pessoa possui um corpo, uma mente, um coração e uma alma. Como pode alguém que está diante de outra pessoa dizer que é a outra pessoa? Não parece absurdo? Só parece absurdo quando vivemos no físico, e não quando vivemos na unicidade do Espírito. Quando declaramos que todos os seres humanos são iguais, apenas descrevemos um fato simples, no qual acreditamos interiormente ou tentamos acreditar. É o sentimento de identificação que nos faz sentirmos um. Krishna diz: “Eu sou isto, Eu sou aquilo, Eu sou tudo.” E Ele ainda diz que Ele é o melhor, mais elevado e mais poderoso em tudo. Isso significa que Sua Consciência está manchada de parcialidade? Ele discrimina? Não. Ele é imparcial, Ele não discrimina. “Arjuna, sou o ‘Eu’ entronado no coração de todos os seres. Sou o princípio, o meio e o fim de todos os seres.” (10.20)

Ele quer iluminar a mente de Arjuna ao dizer que, no processo de evolução cósmica, Ele revela e manifesta a Sua própria perfeição. Suas manifestações divinas são infinitas. Ele mencionou apenas algumas, como exemplo. Dele nascem a permanência, bondade e força. Ele diz a Arjuna que este não precisa conhecer Suas manifestações divinas em detalhe. Isso simplesmente confundirá a sua mente. “Eu criei o universo todo com uma porção de Mim.” (10.42) Sabendo disso, o buscador em Arjuna pode facilmente satisfazer a sua fome.

“Sou a semente de todas as coisas, animadas e inanimadas.” (10.39) Arjuna agora realiza que Krishna não é meramente o corpo. Ele é o Eu tudo-permeante. Arjuna deseja saber sob qual forma particular o Eu deve ser adorado. “Sob todas as formas,” é a resposta imediata de Krishna. Nada existe sem o Eu. O Eu está em tudo, e tudo está no Eu. Essa é a sabedoria que o conhecimento do buscador deve possuir.

O Gita nos ensina a mais pura unicidade. Essa unicidade é a unicidade interior. Essa unicidade interior é, ao mesmo tempo, espontânea e única. Essa unicidade nunca pode ser mutilada ou reduzida pela mente. O reino de unicidade está muito além do alcance da mente física.

Auto-conhecimento é o conhecimento da unicidade universal. A perfeição divina pode ser fundada apenas no fértil solo da unicidade universal. Sirva a humanidade, precisamente porque a Divindade é evidente dentro da humanidade. Conheça a Divindade, e você logo realizará a Imortalidade de Deus em si, e a sua Imortalidade em Deus. Apenas Deus no homem e o homem em Deus podem anunciar as mais genuínas encarnações da perfeita Perfeição.

 

 

Livro Bhagavad Gita – capítulo 9 – O Segredo Supremo

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Livro Bhagavad Gita – capítulo 9 – O Segredo Supremo

 

O segredo supremo é o Conhecimento supremo. Ele não pode ser explicado. Ele deve ser realizado. Esse supremo Segredo está escrito em letras douradas nos mais profundos recônditos de cada coração divinamente humano. Ele não rejeita ninguém, nem mesmo aquele que está afogado em pecados. Aquele que não possui fé no que Krishna diz não terá saída das amarras da ignorância. Ter fé é ter uma medida de boa sorte singular. Assim como a devoção exemplar, a fé também precisa de um Deus pessoal, e ela tem um. A fé não é uma crença cega. A fé não é uma entrega cega, indefesa, aos livros sagrados. A fé é a percepção consciente da nossa liberdade ilimitada.

Krishna diz: “Ó Arjuna, a salvação não é para aquele que não possui fé. Ele está preso para sempre às tristezas da vida e às dores da morte.” (9.3) Aquele que trilha a estrada da fé verá por si mesmo a Verdade suprema aqui na terra. A determinação do coração aspirante do buscador é a sua fé mística. A convicção da reveladora alma do buscador é a sua fé triunfante. Um homem comum, não aspirante, é colocado a flutuar pelos mundos de falsas esperanças. Mas um homem de fé sempre vive nos mundos de forte afirmação. Completamente alegre e sem reservas, ele lança mais e mais combustível de fé reluzente no Altar de Deus. É desnecessário dizer que o florescimento de sua alma corre a passos largos.

Com um sorriso, Krishna diz: “Os desiludidos fazem pouco caso de Mim, das minhas encarnações humanas, não sabendo que Eu sou o Senhor Supremo de todas as coisas.” (9.11)

Reconhecer um Avatar não é uma tarefa fácil. É necessário ser abençoado pelo próprio Avatar ou possuir o dom da visão interior. Um aspirante deve se preparar para ser capaz de reconhecer um Avatar. Ele deve evitar os prazeres dos sentidos. Ele não pode ser controlado pelas paixões. É ele quem deve controlar suas paixões. Ele deve inspirar sempre o alento da pureza. O medo ele deve partir ao meio. A dúvida ele deve vencer. A paz ele deve invocar. A alegria ele deve beber.

Realizar cerimônias e ritos abstrusos não é necessário. A auto-doação é a única coisa necessária. Deus aceita tudo com a maior alegria. Podemos começar nossa jornada interior oferecendo a Ele folhas, flores e frutos. Mesmo o menor ato de oferecimento a Deus é um passo dos mais genuínos no caminho da auto-descoberta e Deus-descoberta. Nós pensamos. Se oferecermos nosso ‘pensar’ a Deus, esse próprio ato de oferecimento dos pensamentos nos fará por fim um com Deus, o Pensamento. Um homem comum sente que ele pensa apenas porque vive. Mas Descartes possui uma visão completamente diferente: “Penso, logo existo.” Esse “existo” não é apenas o fruto da criação, mas também o seu alento. São significantes as palavras de Bertrand Russell: “Os homens temem os pensamentos mais do que qualquer outra coisa na terra – mais do que a ruína, mais do que até mesmo a morte.”

Se pudermos descobrir um pensamento verdadeiro, divino, no mesmo momento Deus irá pedir ou obrigar o tempo a ficar do nosso lado. Com a exceção do tempo, nada pode nos ajudar a sentir o alento da Verdade e tocar os pés de Deus. Podemos possuir o tempo da Eternidade se realmente quisermos. São doces e cheias de significado as palavras de Austin Dobson: “O tempo se vai, você diz? Ah, não! O Tempo fica; nós vamos!”

Nós servimos. Se servimos a Ele, a Ele apenas, na humanidade, nos tornamos um com Sua Realidade absoluta e Sua Unicidade universal. Não podemos esquecer que nosso serviço dedicado deve ser oferecido com uma enxurrada do mais puro entusiasmo. O verso 29 é muito familiar e conhecido. “Para Mim, todos são iguais. Não sei favorecer; não sei desfavorecer. Meus devotos amorosos e que me adoram estão em mim; também eu estou neles.” (9.29) Essa é uma experiência que se destaca, como um resgate corajoso, na vida de um buscador verdadeiro. Não há privilégio especial. A todos é dada a mesma oportunidade. É desnecessário dizer que um verdadeiro devoto já passou por intensas disciplinas espirituais. Se ele agora se torna um devoto genuíno e passa a ser querido e próximo de Krishna, deve-se compreender que ele está tendo o resultado de suas disciplinas férreas e severas austeridades do passado. Sem dor, não há resultado. Sem sinceridade, não há sucesso. Tenha aspiração. Ela acelerará o seu progresso interior e exterior.

O devoto aspira. Sri Krishna reside em sua aspiração. O devoto realiza. Em sua relização, ele descobre que Krishna é o seu eterno alento. Um devoto nunca está sozinho. Ele descobriu a verdadeira Verdade – que o seu sacrifício o une com seu Senhor. Quanto mais ele se oferece conscientemente ao Senhor, mais forte se torna seu laço divino de união, ou melhor, unicidade.

Anityam (não duradouro, efêmero); Asukham (sem prazer, sem alegria)[1]. O mundo exterior vive em nossa consciência terra-limitada. Essa consciência terra-limitada pode ser transformada na Consciência Eterna através de aspiração, devoção e entrega. A Consciência Eterna abriga alegria perpétua. A libertação deve ser alcançada aqui neste mundo. Qualquer homem de promessa irá alegremente assinar a destemida declaração de Emerson: “Outro mundo!? Não há outro mundo. Aqui, ou em lugar nenhum, é a questão integral.”

Quando olhamos para o mundo com nosso olho interior, o mundo é belo. Essa beleza é a reflexão da nossa própria divindade. Deus, o Belo, tem nosso coração aspiração como Seu Trono eterno. Nós, os buscadores do Supremo, nunca poderemos seguir no mesmo sentido que a orgulhosa filosofia de Nietzsche. Ele profere: “O mundo é belo, mas possui uma doença chamada de homem.” Pelo contrário. Podemos dizer em termos precisos que o mundo é belo porque ele foi iluminado por uma beleza superna chamada de Homem.

Anityam e Asukham não podem envenenar o coração de um verdadeiro buscador. Sua fé é casada com seu destino dourado. Ele canta e canta:

 

Meus dias eternos se vêem em um tempo que acelera;

Eu toco Sua Flauta de rapsódia.

Feitos impossíveis não mais impossíveis parecem;

Em algemas-nascimento agora reluz a Imortalidade.

 

     – Sri Chinmoy, Immortality, My Flute, New York, 1972.

[1] * O autor aqui se refere ao verso 9.33 do Bhagavad Gita, onde ambas as palavras são usadas, e a segunda linha diz: “Você, que veio a este mundo transiente (anityam) e sem alegria (asukham), devote-se a Mim.”

Livro Bhagavad Gita – capítulo 8 – O Infinito Imperecível

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Livro Bhagavad Gita – capítulo 8 – O Infinito Imperecível

 

Brahman é o Infinito Imperecível. Outro nome para Brahman é Aum. Aum é o Criador. Aum é a Criação. Aum está na Criação. O Aum está além da Criação.

Este capítulo começa com uma saraivada de perguntas muito significativas. Brahman, Adhyatma, Karma, Adhibhuta, Adhidaiva, Adhiyajña – o que são? O Senhor responde: “Brahman é o Absoluto Imperecível. Adhyatma é o auto-revelador Conhecimento da Natureza primeva de Brahman. Karma é o nascimento da atividade, normal e natural. Adhibhuta é a manifestação material perecível. Adhidhaiva é o conhecimento daqueles que são Reluzentes. Adhiyajña é o sacrifício que Eu faço para unir a manifestação de formas finitas com a Minha Vida infinita.” (8.3-4)

Krishna afirma que a auto-realização ou a realização da Imortalidade devem ser alcançadas durante a vida, no corpo, e em nenhum outro lugar. Assim como cada ser humano cria limitações, imperfeições e amarras, ele também é capaz de transcendê-las. Ele por fim entrará nos planos de Plenitude, Perfeição e Liberdade.

Nossa existência é o resultado de uma existência anterior. Este nosso mundo é o resultado de um mundo que existiu antes. Tudo evolui. A essência da evolução é um movimento interior e exterior. Esse movimento ou mudança acontece até mesmo no mundo de Brahma[1]. Mesmo após alcançar o mundo de Brahma, não há fuga das armadilhas do nascimento. Falando a verdade, nossos dias e noites terrenos nada são, senão um infinitesimal segundo, se comparados com os dias e noites de Brahma. Mil eras vivem num único dia de Brahma, e mil eras vivem em uma única noite de Brahma.

De nada adianta tomar refúgio em nossos dias e noites terrenos, pois são efêmeros. De nada adianta tomar refúgio nos dias e noites de Brahma, pois também eles não são eternos. Devemos e precisamos tomar refúgio apenas no Eterno Coração do Senhor Krishna, que é o nosso abrigo mais seguro, onde o dia não é necessário, e nem a noite, pois Seu coração é a Luz da Infinidade e a Vida da Eternidade. De nada mais precisamos, salvo a devoção. Nossa escolha suprema é a devoção. Nosso coração de devoção responde ao Seu Coração de Amor. Diz Ele: “Apenas a devoção invariável possui o direto e livre acesso à Minha Vida imortal, Minha Verdade absoluta.” (8.22)

O que está no interior cedo ou tarde se manifestará no exterior. O possuidor de pensamentos divinos também será o agente de ações divinas. Apenas para um homem dedicado e aspirante é possível pensar em Deus conscientemente enquanto estiver deixando o mundo terreno.

Krishna nos diz como um yogi entra no Derradeiro após deixar seu envoltório mortal. “Seus sentidos estão sob controle. Sua mente está colocada no coração, e ele medita em Mim. AUM ele canta devotadamente. Ele abandona o Prana, o alento-vida, e entra na realização última em Mim.” (8.12-13)

A madame H.P. Blavatsky, fundadora da Teosofia, mencionou Aum de uma maneira muito simples e significativa. Ela disse que “Aum significa boas ações, e não apenas um som dos lábios. Você deve dizê-lo em ações.” Para saber o que o Aum é e o que ele representa, é recomendado estudar os Upanishads que falam sobre Aum. O Mandukya Upanishad nos oferece o significado de Aum explicitamente.

O significado do Aum pode ser descoberto através de livros. Mas o conhecimento do Aum nunca pode ser obtido através do estudo dos livros. Ele deve ser conquistado vivendo-se uma vida interior, uma vida de aspiração, que transportará o aspirante aos níveis mais elevados de consciência. A maneira mais fácil e mais efetiva para subir alto, mais alto, altíssimo, é carregar-se de amor puro e devoção genuína. Dúvida, medo, frustração, limitação e imperfeição estão destinadas a se entregar ao amor devotado e à devoção entregue. O amor e a devoção têm o poder de possuir o mundo e serem possuídos pelo mundo. Ame a manifestação de Deus; você descobrirá que a criação cósmica é sua. Devote-se à causa da manifestação cósmica; você verá que ela o ama e o considera como parte de si.

É verdade que o conhecimento pode lhe trazer o que o amor e a devoção oferecem. Mas, muitas vezes, o conhecimento não é nutrido por amor à verdade, e sim pela satisfação dos desejos. É infrutífera a busca de conhecimento quando o desejo está por detrás dela. Quando o aspirante é todo amor e devoção, ele voa alto.

Durante o percurso de sua jornada, ele canta:

 

Não mais meu coração irá chorar ou se entristecer.

Meus dias e noites se dissolvem na própria Luz de Deus.

Acima da labuta da vida, minha alma

É um Pássaro de Fogo voando no Infinito.

 

Ao fim da sua jornada, ele canta:

 

Conheci o Uno e Seu Jogo secreto

E fui além do mar do Sonho-Ignorância.

Em ressonância com Ele, eu brinco e canto;

Possuo o Olho dourado do Supremo.

 

Ele agora se tornou sua própria Meta. Auto-amoroso, ele canta:

 

Profundamente embriagado com a Imortalidade,

Sou a raiz e os ramos de uma vastidão imensa.

Minha Forma eu conheci e realizei;

O Supremo e eu somos um – a tudo sobrevivemos.

 

– Sri Chinmoy, “Revelation”, My Flute, New York, 1972

[1] * O deus pessoal Brahma (masculino) não deve ser confundido com o Absoluto impessoal Brahma(n) (neutro). Por conta disso, muitos autores usam a palavra Brahma no nominativo e Brahman como forma-raiz (como Sri Chinmoy faz neste livro), pois dessa forma os dois nomes ou princípios são possíveis de distinção sem uma transliteração erudita exata.

Livro Bhagavad Gita – capítulo 4 – Conhecimento, Ação e Sacrifício

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Livro Bhagavad Gita – capítulo 4 – Conhecimento, Ação e Sacrifício

 

No segundo e terceiro capítulos do Gita, Sri Krishna abençoou Arjuna com alguns vislumbres de luz yogi. No presente capítulo, ele abençoa Arjuna com uma enchente de luz espiritual. Ele ampla e abertamente revela os segredos do Yoga. Difícil tornou-se para Arjuna acreditar que Sri Krishna ensinou a Vivaswam (o deus-sol) esse Yoga eterno. Vivaswam ofereceu-o ao seu filho Manu, e Manu o transferiu aos seu filho Ikshwaku; e dele foi passado para os Rishis reais. Muito antes do nascimento de Krishna, Vivaswam viu a luz do dia. Naturalmente, a declaração de Sri Krishna lançaria Arjuna num mar de confusão.

O eterno mistério da reencarnação está agora sendo revelado. Krishna diz: “Arjuna, você e eu passamos por incontáveis nascimentos. Eu os conheço todos, mas a sua memória lhe falha. Apesar de eu não ter nascimento ou morte e ser o Supremo Senhor de todas as coisas, eu Me manifesto no universo físico através da Minha própria Maya, mantendo Minha Prakriti (Natureza) sob controle.” (4.5-6)

Maya significa ilusão. Ela também significa a irrealidade das coisas efêmeras. A irrealidade é personificada como uma fêmea, que também se chama Maya. As palavras Dharma e Maya são a expressão constante e espontânea da alma indiana. De acordo com Shankara, o Vedantista dos cumes himalaios, há apenas uma Realidade Absoluta, o Brahman incomparável. Advaita, ou Monismo, derivado do Vedanta, é a sua significante filosofia. Apenas Brahman existe. Nada fora de Brahman existe. O mundo, como se coloca diante do nosso olho mental, é uma ilusão cósmica, uma prisão enganosa. Apenas quando o verdadeiro conhecimento desperta em nós é que estaremos em condição de nos livrarmos das redes da ignorância e das armadilhas do nascimento e morte.

Uma coisa que existe é real. Uma coisa que parece é irreal. Uma Vida eterna é real. Ignorância e morte são irreais. Maya é um tipo de poder cheio de mistério. Sabemos que eletricidade é um poder, mas não sabemos de fato o que a eletricidade é. A mesma verdade se aplica a Maya. Deus utiliza o Seu Poder-Maya para adentrar o campo da manifestação. É o processo do Uno tornar-Se muitos, e depois o Retorno dos muitos ao Uno original.

Prakriti quer dizer ‘natureza’. É a causa material, assim como a causa original de toda coisa na criação manifesta. Purusha é a Face silente. Prakriti é o sorriso ativador. Purusha é a consciência pura, testemunha, enquanto Prakriti é a consciência em evolução e transformação. Em e através de Prakriti acontece a satisfação do Jogo Cósmico.

Arjuna conhecia Sri Krishna como seu primo querido. Mais tarde, o conheceu como seu amigo do peito. Ainda mais tarde, ele o conheceu como seu amado Guru, ou Professor espiritual. Neste capítulo ele vem a conhecer Sri Krishna como o Supremo Senhor do mundo. Krishna diz: “Sempre que a imoralidade cresce e a retidão declina, eu Me incorporo. Para proteger e preservar os virtuosos e colocar um fim aos maléficos, para estabelecer o Dharma, eu Me manifesto de era em era.” A partir desse entoar alma-comovente descobrimos imediatamente que Ele é ambos o Conhecimento derradeiro e o Poder supremo. Com confiança e sorriso, ele recarrega Arjuna com uma corrente espiritual de alta-voltagem de sua grande Usina.

 

Samvavami Yuge Yuge (4.8)

Eu Me incorporo de era em era.

 

Sri Krishna agora se declara um Avatar. Um Avatar é o descendente direto de Deus. No mundo da manifestação, ele incorpora o Infinito.

Na Índia, há um mestre espiritual que se declarou ser um Avatar. Infelizmente, ele se tornou objeto de impiedoso ridículo, tanto no ocidente quanto no oriente. E, já que não conseguia lutar bravamente contra o pujante sarcasmo, ele por fim teve de mudar sua política malsucedida. Seu orgulhoso dito deu um passo adiante: “Não apenas eu, mas todas as pessoas são Avatares.” Já que todos são Avatares, quem irá criticar quem? Ah, por fim o auto-entitulado Avatar pôde dar um suspiro de alívio.

Pode parecer ridículo, mas é fato que, na Índia, praticamente todo discípulo diz que seu Guru é um Avatar, um descendente direto de Deus. Uma enxurrada de entusiasmo os varre quando falam sobre seus Gurus. O gigante espiritual Swami Vivekananda não pôde se conter e disse que em Bengala Ocidental, na Índia, os Avatares crescem como cogumelos na floresta. Por outro lado, dizer que só existiu um Avatar, o Filho de Deus, é igualmente ridículo.

A cada vez que um Avatar vem, ele cumpre um papel diferente na marcha da evolução, de acordo com a necessidade da era. Em essência, um Avatar não é diferente de outro. Um Avatar genuíno, Sri Ramakrishna, revelou a verdade: “Aquele que era Rama, aquele que era Krishna, agora está na forma de Ramakrishna.”[1]

Há dois opostos eternos: o bem e o mal. De acordo com Sri Krishna, quando a maldade alcança o seu zênite, Deus precisa envergar a veste humana, na forma de um Avatar. A vinda de Sri Krishna teve de lidar com a mais negra força maligna, Kamsa. Similarmente, Herodes, o tirano sem par, requeriu a vinda de Jesus Cristo. O nascimento do Cristo exigiu a extinção da vida de ignorância. Janmashtami, o nascimento de Krishna, é celebrado por toda a Índia, objetivando lembrar a saída do mar de ignorância e a entrada no Oceano de Conhecimento.

A maneira mais fácil e efetiva de conceber a idéia de um Deus pessoal é entrar em contato com um Avatar e permanecer sob sua orientação. Ter um Avatar como Guru é encontrar um porto seguro no barco da vida. Em conexão, podemos citar o corajoso dito de Vivekananda: “Homem algum pode ver Deus senão através dessas manifestações humanas. Fale o que quiser, tente o quanto quiser, você não consegue pensar em Deus senão como um homem.”[2]

De acordo com muitos, assim como o Buda é o homem mais perfeito, Krishna é o maior Avatar que o mundo já viu.

Há também os Anshavatars (Avatares parciais). Mas Sri Krishna é um Purnavatar (Avatar pleno), em e através do qual o Supremo está manifestado de forma completa, ilimitada e integral. Quando a aspiração humana se eleva, a Compaixão divina baixa na forma de um Avatar.

“Eu aceito os homens da forma como eles me procuram.” (4.11) Não pode haver alívio maior do que esse para o coração que sangra da humanidade. Se aceitamos Krishna com fé, Ele ilumina nossa mente de dúvidas. Se aceitamos Krishna com amor, Ele purifa nosso vital atormentador. Se aceitamos Krishna com devoção, ele transforma a noite ignorância da nossa vida no sol-conhecimento da Sua eterna Vida.

Sri Krishna agora quer nossa mente fixa nas castas. Ele diz que ele mesmo criou a ordem quádrupla do sistema de castas, de acordo com aptidões e ações de cada uma. Há pessoas que dão toda a importância ao nascimento e hereditariedade, e deliberadamente ignoram aqueles que são abundantemente abençoados com capacidades e realizações. O resultado é que a sociedade tem de sofrer com as bordoadas impiedosas da confusão total. É verdade que nascimento e hereditariedade possuem peso, especialmente no coração da sociedade. Mas essa dita importância não pode nos oferecer nem uma gota de luz e verdade. É por virtude da ação, nobre e serena, que podemos nos tornar o Altíssimo e manifestarmos o mais Profundo aqui na terra.

Do verso 16 ao verso 22, vemos Krishna despejando luz sobre ação, inação e ação incorreta. Ação – e, diga-se, ação verdadeira – não é apenas mover o corpo. Ação é auto-doação. Ação é abandonar o apego. Ação é trazer os sentidos sob controle. Ação incorreta é dançar com o desejo. Ação incorreta é desobedecer o eu interior. Ação incorreta é desviar-se do caminho da Verdade exotérica e esotérica.

Comumente acredita-se que inação é igual a inércia, preguiça e etc. Mas a inação verdadeira é lançar-se em atividades incessantes, todavia mantendo a mente consciente em um estado de sublime tranquilidade ou transe.

Fé e dúvida encerram o quarto capítulo. A fé não é o mero sentimento emocional de ser fiel à sua crença. É um alento interior vivente, ansiando por descobrir, realizar e viver na Verdade. A fé é o exercício da vontade do buscador em forçar-se a permanecer na tudo-vidente e tudo-preenchedora Vontade de Deus. O Yajur Veda nos conta que a consagração floresce na auto-dedicação, que a graça floresce na consagração, que a fé floresce na graça, e que a verdade floresce na fé. O que mais é a fé? Cito Charles Hanson Towne:

 

Eu não preciso fazer a minha fé falar alto.

Triplamente eloquentes

São as árvores silenciosas e a verde relva que escuta;

Mudificadas as estrelas, cujo poder é inexaurível;

As colinas estão silentes; e, ainda assim, como falam de Deus!

 

Dúvida é nua estupidez. Dúvida é absoluta futilidade. Dúvida é externa conflagração. Dúvida é interior destruição.

Sanmshayatma Vinashyati – “O possuidor da dúvida perece.” (4.40) Ele está perdido, completamente perdido. A ele é negado o caminho do Espírito. Também lhe é negado o segredo da iluminação da vida. Krishna diz: “Para o homem que duvida, não lhe pertencem nem este mundo e nem o próximo, e também não a felicidade.” O Novo Testamento nos presenteia com a mesma verdade: “O homem de mente duvidosa não desfruta deste mundo e nem do outro, e também não da beatitude final.” (4.40)

Em Nyaya (lógica), um dos seis sistemas de filosofia indiana, percebemos que a dúvida nada é senão um julgamento conflitante acerca do caráter de um objeto. A dúvida passa a existir do fato de ela reconhecer propriedades comuns a diversos objetos, ou propriedades incomuns a quaisquer objetos. A dúvida é justamente a falta de regularidade na percepção. E, também, sendo não-existente, ela apenas existe com a não-percepção.

A dúvida é um tigre tudo-devorador. A fé é um leão que ruge, inspirando o aspirante a se tornar o tudo-iluminador e tudo-preenchedor Supremo.

A pobre e cega dúvida, esquecida da verdadeira verdade, de que a fé é a mais forte e convincente afirmação da vida, tenta dar uma sacudida violenta no barco-vida do homem.

As encantadoras palavras do poeta incitam nossos corações em suas maiores profundezas:

 

Melhor um dia de fé

Do que mil anos de dúvida!

Melhor uma hora mortal Contigo

Do que uma vida interminávem sem Ti.

[1] * Swami Nikhilananda, Vivekandanda: Uma Biografia, Calcutta, 1987, p. 67.

[2] * Swami Vivekananda, The Yogas and Other Words, Swami Nikhilananda, ed. New York, 1953, p. 420.

Livro Bhagavad Gita – capítulo 3 – Yoga da Ação

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Livro Bhagavad Gita – capítulo 3 – Yoga da Ação

 

Através da nossa idenficação com o coração de Arjuna, somos capazes de sentir, no início do terceiro capítulo, que estamos lançados no mar de impiedosa confusão e imensa dúvida. Arjuna quer alívio imediato da tensão mental; ele quer ouvir uma verdade decisiva. Sua impaciência o previne de enxergar a Verdade completa em todos os seus aspectos. No capítulo anterior, seu divino Professor, Sri Krishna, expressou profunda apreciação pelo caminho do conhecimento, mas, ao mesmo tempo, explicou a Arjuna a grande necessidade da ação. O Professor, obviamente, não tinha a menor intenção de lançar o aluno num mar de confusão. Longe disso. O que Arjuna precisava era de uma visão mais ampla da verdade e um significado mais profundo da Realidade. Quando enxergamos através dos olhos de Arjuna, vemos que este é um mundo de idéias conflitantes. Mas quando vemos através dos olhos de Sri Krishna, vemos um mundo de facetas complementares da Verdade tudo-sustentadora e tudo-permeante.

Conhecimento e ação, acreditava Arjuna, levariam-no à mesma meta. Por que, então, ele está amaldiçoado a (ou é esperado dele) passar pela carnificina da guerra, incitado pela ação?

É verdade que o céu mental de Arjuna estava coberto com densas nuvens, mas seu céu psíquico ansiava por verdadeira iluminação. Sua poderosa pergunta era: “Se você considera o conhecimento como superior à ação, por que me instiga a uma ação tão horrenda?” (3.1)

Sri Krishna agora diz: “Dois caminhos, Arjuna, existem. Eu já lhe disse isso. O caminho do conhecimento e o caminho da ação. Através da arte divina da contemplação, o aspirante trilha o caminho do conhecimento. Através do anseio dinâmico do serviço altruísta, o buscador trilha o caminho da ação.” (3.3)

O conhecimento sente que o mundo interior é o mundo real. A ação sente que o mundo exterior é o mundo real. O caminho do conhecimento entra no interior a partir do exterior, ao passo que o caminho da ação entra no exterior a partir do interior. Essa é a diferença. Mas tal aparente dualidade nunca poderá ser a verdade completa, a Verdade última. Há um provérbio árabe que diz:

 

Há quatro tipos de homens:

 

Aquele que não sabe, e não sabe que não sabe:

ele é um tolo – evite-o;

Aquele que não sabe, mas sabe que não sabe:

ele é simples – ensine-o;

Aquele que sabe, mas não sabe que sabe:

ele dorme – acorde-o;

Aquele que sabe, e sabe que sabe:

ele é sábio – siga-o.

 

Arjuna também teve de passar por esses quatro estágios de evolução. Ao fim do primeiro capítulo, ele declarou: “Ó Krishna, eu não lutarei.” (2.9) Ele não sabia qual era a Verdade, mas estava ignorante desse fato de ele não a conhecer. Krishna, sendo todo Compaixão, não poderia ignorar seu querido Arjuna.

“Eu peço-te; diga o que é melhor para mim.” (2.7) Aqui, a simples sinceridade de Arjuna toca as profundezas do coração de Sri Krishna, e o Professor começa a instruir o aspirante.

Arjuna soube por toda a sua vida que o heroísmo é o próprio alento de um kshatriya como ele, mas sua mente temporariamente eclipsou seu conhecimento interior. Ele estava no mundo do sono ilusório. Portanto, Sri Krishna teve de o acordar, dizendo: “Arjuna, lute! Na vitória, você terá a soberania sobre a terra; na morte, amplamente abertos estarão os portões do Paraíso.” (2.37)

Por fim, Arjuna percebeu que Sri Krishna não apenas conhecia a Verdade, mas também era a Verdade. Ele queria seguir Sri Krishna. Ele clamou: “Saranagata – Tu és o meu refúgio. Estou às Tuas Ordens.”

Aquele que segue o Caminho da Ação é, por natureza, simples, diz Krishna. Ele é simples, e sua ação é direta. O resultado é imediato. Arjuna, no entanto, quer libertação da ação, que é algo simplesmente impossível. A ação não é feita apenas pelo corpo, mas também no corpo, através da mente. A ação inclusive cumpre seu papel nos níveis conscientes e sub-conscientes do ser. A ação não pode morrer. Ela nunca pode sonhar com uma fuga enquanto os impulsos da natureza estiverem vivos. A ação nos amarra apenas quando amarramos as ações com nossas predileções e preferências. A árvore-ação cresce dentro de nós, seja com frutos venenosos ou frutos ambrosiais. De acordo com Shankara, é possível duvidar da existência de Deus, mas é impossível duvidar da própria existência. Um ser humano, se ele abriga bom senso, acredita em sua existência atual. Se ele quiser dar um passo adiante, precisará aceitar a existência inevitável do destino. E o que é o destino? O destino é a experiência em evolução de uma consciência. Essa experiência não é obscura e nem incerta. É a inevitabilidade necessária de uma lei cósmica, esforçando-se pela manifestação exterior em perfeita Perfeição.

Ação e reação são o verso e anverso da mesma moeda. Por vezes, eles aparentam ser dois temíveis inimigos. Não obstante, sua igual capacidade é inegável. O Filho de Deus fez a elevada declaração: “Aqueles que vivem pela espada morrerão pela espada.” (Mateus 26:52)

A ação por si mesma não possui um poder limitante – e nem ela precisa disso. É o desejo na ação aquilo que tem o poder para nos limitar e nos dizer que a liberdade não é para os mortais. Mas se dentro da ação o sacrifício estiver vastamente presente, ou se a ação for realizada num espírito de sacrifício, ou se a ação é considerada como um outro nome para o sacrifício, então ação é perfeição, ação é iluminação, ação é libertação.

Para aquele que está encarnado, a ação é uma necessidade; é preciso agir. O homem é o resultado de um sacrifício divino. É o sacrifício aquilo que pode envisionar a verdade e satisfazer a existência do homem. É apenas no sacrifício onde podemos ver a conexão e o elo preenchedor entre dois indivíduos. Sem dúvidas, o mundo está progredindo e evoluindo. Ainda assim, no mundo ocidental, o sacrifício é muitas vezes visto como um sinônimo de tolice e ignorância. Cito William Q. Judge, um dos primeiros Teósofos:

 

“Apesar de Moisés ter estabelecido sacrifícios para os judeus, os sucessores cristãos aboliram-nos em letra e espírito, com uma curiosa inconsistência que os permite ignorar as palavras de Jesus de que ‘nem um til ou ponto da lei passarão até que todas essas coisas aconteçam’.”

 

Certamente, o oriente atual não é exceção.

O que é sacrifício? É a descoberta de unicidade universal. No Rig-Veda observamos o sacrifício supremo feito pelo sábio Brishaspati:

 

Devebyah kam avrinit mrtyam… (Rigveda X.13.4)

Por amor aos deuses ele escolheu a Morte, e não a Imortalidade, por amor aos mortais.

 

O sacrifício é o segredo do serviço abnegado. Foi o medo ou algum outro motivo duvidoso que compeliu as mentes primitivas a abraçarem o sacrifício. Eles pensavam que os olhos dos deuses cósmicos lançariam chamas se não sacrificassem animais em oferenda. Ao menos eles foram inteligentes o suficiente para não sacrificarem crianças, seus entes queridos. O Supremo queria e irá sempre querer sacrifício, tanto da parte dos seres humanos, quanto dos deuses, para seu benefício mútuo. É o sacrifício recíproco o que faz das duas partes uma só, indivisíveis. O homem oferecerá a sua aspiração; os deuses oferecerão a sua iluminação. Um homem de satisfação verdadeira é um homem de oferecimentos consagrados. O pecado não consegue ficar próximo dele. À existência da humanidade como um todo deve ser dirigida a primeira atenção; a existência individual deve vir depois. O trabalho realizado num espírito de puríssimo oferecimento conduz um aspirante até a morada de perfeito deleite.

As posses não trazem satisfação enquanto o ego vive em nós. O grande rei Janaka sabia disso. Não é de se estranhar que o sábio Yagnyavalka o amava mais. Seus discípulos brâmanes pensavam que Janaka era o preferido apenas porque ele era rei. É óbvio que Deus não permitiria que o sábio Yagnyavalka sofresse esse tipo de críticas baixas. O que aconteceu, então? Mithila, a capital do rei Janaka, começou a arder em chamas crescentes e devoradoras. Os discípulos saíram, deixando o seu preceptor, correndo em direção a suas cabanas. E para quê? Apenas para salvar suas tangas. Todos fugiram, exceto Janaka. Ele ignorou suas riquezas e tesouros queimando na cidade. Janaka ficou junto de seu Guru, Yagnyavalka, ouvindo o discurso abrosial do sábio.

 

Mithilayam pradagdhayam namekincit pranasyati.[1]

Nada eu perco, mesmo que Mithila seja queimada até o chão.

 

Agora os discípulos descobriram porque seu Guru favorecia Janaka sobre os demais. Tal é a diferença entre um homem de sabedoria e um homem de ignorância. Um homem de ignorância sabe que o que ele tem é o corpo. Um homem de sabedoria sabe que o que ele tem e o que ele é é a alma. Portanto, para ele as necessidades da alma são de importância primordial.

Sri Krishna revelou a Arjuna o segredo da conquista da auto-realização e salvação de Janaka. Janaka agia com desapego. Ele agia pelo bem da humanidade, tendo sido preenchido com a luz e sabedoria da divindade. É certo que tal é o caminho dos nobres. Krishna queria que Arjuna trilhasse esse caminho, para que o mundo o seguisse. Mas talvez Arjuna não estivesse completamente convencido. Para convencer Arjuna completamente e sem reservas, Krishna deu o Seu próprio exemplo: “Nada tenho de fazer nos três mundos, nem existe algo que valha a pena conquistar que eu ainda não tenha conquistado; ainda assim, eu trabalho perpetuamente, sempre colocando minha existência em ação. Se eu não agir, os mundos perecerão.” (3.22-24)

Sri Krishna queria que Arjuna fosse liberto das amarras da ignorância. A única maneira de Arjuna conseguir isso era agindo sem apego. Sri Krishna contou a Arjuna o segredo supremo: “Dedique todas as ações a Mim, com sua mente fixada em Mim, o Ser em tudo….” (3.30)

Todos os seres devem seguir suas naturezas. Não há fuga, nem poderá haver. O que a repressão pode fazer? O dever do homem é a bênção inigualável do Céu. É necessário conhecer o seu dever. E, uma vez conhecido, o dever deve ser realizado até o fim.

 

Eu dormi e sonhei que a vida era Beleza;

Acordei e descobri que a vida era Dever.

– Ellen S. Hooper, “Duty”

 

O dever da vida – executado com um fluxo espontâneo de altruísmo com relação à humanidade e sob a condução expressa do ser interior – é a única coisa que transformará a vida em beleza, a beleza Celestial do mundo interior e a beleza terrena do mundo exterior.

O dever de Arjuna era lutar, pois ele era um Kshatriya, um guerreiro. Essa luta não era por poder, mas pelo estabelecimento da verdade acima da falsidade. As palavras muitíssimo encorajadoras e inspiradoras de Sri Krishna acerca do dever individual exigem toda a nossa admiração. “É melhor sempre o próprio dever, ainda que muito humilde, do que o dever de outro, por mais tentador que seja. Mesmo a morte lhe trará beatitude na realização do seu dever; mas fadado à perdição estará aquele que realizar o dever incumbido a outro.” (3.35)

Arjuna tem agora mais uma pergunta, uma pergunta bastante pertinente, e essa é a sua última pergunta neste capítulo. “Impelido pelo que, Ó Krishna, um homem comete o pecado, a despeito de si mesmo?” “Kama, Krodha,” responde Krishna, “desejo e raiva – são esses os hostis inimigos do homem.” (3.37)

O desejo é insaciável. Uma vez nascido, ele não sabe como morrer. A experiência de Yayati acerca do desejo pode lançar luz abundante sobre nós. Citemos a sua sublime experiência. O rei Yayati era um dos ilustres ancestrais dos Pandavas. Para ele, a derrota era uma desconhecida completa. Ele bem conhecia os Shastras (escrituras). Seu amor pelos súditos do reino era imenso. Intensa era a sua devoção a Deus. Não obstante, cruel foi o seu destino. Seu sogro, Sukracharya, o preceptor dos asuras (demônios), pronunciou uma maldição fatal sobre ele, e ele foi forçado a casar-se com a filha de Sukracharya, Devayani, bem como com Sarmistha. Sukracharya o amaldiçoou com velhice prematura. E, é claro, a maldição funcionou na mesma hora. O orgulho inimitável da masculinidade de Yayati foi impiedosamente atacado pela idade. Em vão, o reu implorou perdão. Sukracharya se acalmou um pouco. “Rei,” ele disse, “estou diminuindo a força da minha maldição. Se qualquer ser humano concordar em trocar a beleza e glória da juventude com você, com o estado deplorável do seu corpo, então você voltará aos primórdios das sua própria juventude.”

Yayati tinha cinco filhos. Ele implorou aos seus filhos, tentou-os com o trono do seu reino, persuadiu-os de todas as maneiras possíveis a concordarem com uma troca de vida. Seus primeiros quatro filhos recusaram suave e prudentemente. O mais jovem, o mais devotado, Puru, alegremente aceitou a velhice de seu pai. Ora vejam, Yayati uma vez mais voltou à plenitude da juventude. Na mesma hora, o desejo entrou em seu corpo e o ordenou a desfrutar da vida até a última gota. Ele apaixonou-se desesperadamente por uma apsara (ninfa) e passou muitos anos com ela. Mas ora, seu desejo insaciável não podia ser saciado pela auto-indulgência. Nunca. Por fim ele percebeu a verdade. Ele disse carinhosamente ao mais querido filho, Puru: “Filho, ó filho meu, é impossível satisfazer o desejo sensual. Ele não é mais extinto pela indulgência do que o fogo é extinto ao derramarmos ghee (manteiga clarificada) nele. A você eu retorno a sua juventude. A você eu dou o meu reino, como prometido. Reine com devoção e sabedoria.” Yayati uma vez mais voltou à velhice. Puru reconquistou a juventude e administrou o reino. Yayati passou o resto da vida na floresta praticando austeridades. No tempo certo, Yayati deu seu último suspiro ali. O pássaro-alma retornou à sua morada de deleite.[2]

O apto comentário de Bernard Shaw sobre o desejo pode ser citado para aumentar a glória da experiência de Yayati:

 

Há duas tragédias na vida. Uma é não conseguir o desejo do seu coração. A outra é consegui-lo.”

– Homem e Superhomem

 

O papel do desejo acabou. Agora saltemos sobre a fúria da raiva. A raiva nasce do desejo insatisfeito. A raiva é o elefante enlouquecido no homem. Para a nossa ampla surpresa, a maior parte dos celebrados sábios indianos do passado venerável acharam quase impossível conquistar a raiva. Eles costumavam amaldiçoar seres humanos a torto e a direito, por vezes até sem motivo. O sábio Durvasa, do Mahabharata, era o primeiro na lista de sábios realmente consumidos pela raiva. Ele era ao mesmo tempo a austeridade e a ira encarnadas.

Desejo satisfeito, a vida se torna uma cama de espinhos. Desejo superado, a vida se torna um leito de rosas. Desejo transformado em aspiração, a vida voa para a mais elevada libertação, a vida ceia com a suprema salvação.

[1] *Tal parece ser um bem conhecido dizer do Rei Janaka, citado de uma forma suavemente diferente no Mahabharata XII.17.18

[2] * Ramayana 7.58-59; veja também Vishnupurana IV.10 e Brahma-purana 146.11-18

Livro Bhagavad Gita – capítulo 1 – A Tristeza de Arjuna

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A Tristeza de Arjuna

 

O Gita começa com as palavras Dharmakshetre Kurukshetre (Bhagavad Gita 1.1). “No campo sagrado de Kurukshetra” – essa é a tradução literal. Kshetra significa campo. Dharma é uma palavra espiritual extremamente fértil em significados. Ela quer dizer o código interior da vida; lei moral, religiosa e espiritual; fé viva na existência de Deus e na própria existência; dever pleno de alma, especialmente os previstos nas escrituras, observância devotada de qualquer casta ou secto e disposição para atender os ditames da própria alma.

A raiz em sânscrito da palavra dharma é dhri, prender. Quem nos prende? Deus. O que nos prende? A Verdade. O Dharma prevalece. Se não sempre, por fim ele deve prevalecer, pois no dharma está o próprio alento de Deus.

Duryodhana foi até Gandhari, sua mãe, na véspera da guerra, para receber suas bênçãos. ‘Tal mãe, tal filho’, dizem. Mas aqui tratamos de uma verdadeira exceção. Ela abençoou Duryodhana, dizendo: “A vitória estará onde o dharma estiver.” Isso quiz dizer que Yudhisthira, o filho do dharma, venceria a guerra. Ela tinha tal coração altruísta. E digo mais: o mundo estuda o dharma único de Gandhari na aceitação inigualável do destino de seu esposo. Deus não deu visão a Dhritarashtra. Gandhari provou sua unicidade absoluta com seu esposo cego ao vendar seus próprios olhos. Ela abraçou a cegueira, um sacrifício digno de ser lembrado e admirado pela humanidade. Ela não via o mundo exterior. Mas as bênçãos prediletas do mundo interior pairavam sobre Gandhari.

O dharma do nosso corpo é o serviço, o dharma da nossa mente é a iluminação, o dharma do nosso coração é a unicidade e o dharma da nossa alma é a libertação.

Algumas pessoas clamam que dharma quer dizer religião. Nesse caso, quantas religiões existem? Apenas uma. Certamente não existem duas, e muito menos três. E o que significa religião? Religião significa descoberta-homem e descoberta-Deus, as quais são a mesma e única coisa.

Observemos atentamente a palavra dharmakshetra, ‘o campo do dharma’. Por que Kurukshetra é chamado de dharmakshetra? Um campo de batalha pode ser qualquer coisa menos dharmakshetra, mas essa batalha se deu no Kurukshetra, onde incontáveis sacrifícios religiosos foram realizados. E algo mais: Kurukshetra era situado em meio a dois rios sagrados, o Yamuna e o Saraswati, na parte noroeste da Índia. Um rio é perpetuamente sagrado. O rio abriga água. Água representa consciência no domínio da espiritualidade, e essa consciência é sempre pura, intocada, santificadora e energizante. Descobrimos porque o Kurukshetra se chamava dharmakshetra e não outra coisa.

Considerar o primeiro capítulo como um capítulo introdutório, dando-lhe muito pouca importância, como fazem alguns estudiosos, intérpretes e leitores, pode não ser um ato de sabedoria. O primeiro capítulo tem um significado especial próprio. Ele lida com a tristeza de Arjuna, com seu conflito interior. O pobre Arjuna estava dividido em tristeza entre duas idéias igualmente formidáveis: deveria ele ir à guerra ou não? Curiosamente, Kunti Devi, a mãe de Arjuna, orava ao Senhor Krishna para que lhe abençoasse com tristeza perpétua. Por quê? Kunti Devi percebeu que, se a tristeza a abandonasse e a deixasse para sempre, certamente não haveria necessidade da sua parte de invocar o Senhor Krishna. O seu mundo queria sempre a tristeza, sofrimento e tribulação, para que o seu coração pudesse constantemente acalentar a toda-compassiva Presença do Senhor. Até um certo ponto, podemos recordar, sob o mesmo tema, o Endymion de Keats:

 

“… mas alegremente, alegremente ela (a tristeza)

me ama carinhosamente;

Ela é tão constante comigo, e tão bondosa.”

 

Na verdade, do mais elevado ponto de vista espiritual, não podemos hospedar a sabedoria de Kunti Devi. Uma pessoa espiritual não tem de abraçar o sofrimento com a esperança de alcançar a Dádiva de Deus. Ela tem de aspirar. Sua aspiração tem de revelar a presença de Deus dentro dela – o Amor , a Paz, Deleite e Poder de Deus. Ela encara a tristeza como uma experiência na vida. A pessoa espiritual também sabe que é Deus quem está tendo essa experiência em e através dela.

É verdade que a tristeza purifica nosso coração emocional. Mas a Luz divina realiza essa tarefa de maneira muito mais exitosa. Ainda assim, não devemos temer a chegada da tristeza na vida. Longe disso. A tristeza deve ser transformada em alegria duradoura. Como? Com a aspiração ascendente do nosso coração e a sempre-fluente Compaixão de Deus combinadas. Por quê? Porque Deus é todo alegria, e o que nós humanos queremos é ver, sentir, realizar e por fim nos tornarmos Deus, o Deleitoso.

Os principais guerreiros podiam ser vistos agora em ambos os lados. Alguns estavam ávidos para lutar, de forma a demonstrar seu grande valor, ao passo que guerreiros inigualáveis como Bhishma, Drona e Kripa lutavam por conta de um débito moral. No campo de batalha em si, logo antes de a batalha começar, Yudhisthira caminhou descalço até o exército oponente, precisamente até Bhishma, Drona e outros simpatizantes, buscando suas bênçãos. Bhishma, enquanto abençoava Yudhisthira dos mais profundos recônditos de seu coração, disse: “Filho, meu corpo irá lutar, mas meu coração estará com você e seus irmãos. Sua Vitória está destinada.” Drona, ao abençoar Yudhisthira, exclamou: “Sou vítima de um débito. Eu lutarei pelos Kauravas, é verdade. Mas a vitória será sua. Tal é a certeza do meu coração brâmane.”

Acabadas as bênçãos, Yudhisthira retornou. Então soaram inúmeras trombetas, conchas, tambores de guerra e cornetas. Elefantes bramiram, cavalos relincharam. A mais selvagem tempestade despencou.

Flechas voaram como meteoros no céu. Esquecida estava a doce, antiga afeição. A morte cantava a sua canção. Podemos agora lembrar da “Investida da Brigada Leve” –

 

Canhões à direita deles,

Canhões à esquerda e

Canhões adiante

Atiraram e relampejaram;

Trovejados com balas e projéteis

Corajosamente eles cavalgaram

Diretamente para as mandíbulas da Morte.

 

 

O canhão não havia ainda sido inventado naquele tempo, nos dias do Mahabharata, mas a cena de morte era a mesma, com flechas, espadas, maças e projéteis. Não seria necessário explicitar, mas devemos nos identificar com as flechas, maças e rugidos de leão dos heróis do Mahabharata, e não com as grandiosas descobertas de guerra de hoje. A alegria em conhecer as conquistas do passado venerável é, ao mesmo tempo, irresistível e inimaginável.

Arjuna exclamou: “Por favor, posicione minha carruagem, Ó Krishna, entre as duas formações de batalha, para que eu possa ver aqueles que anseiam pela guerra. (1.21-22)” Ele observou as posições da batalha. Mas, ora, Arjuna viu entre seus oponentes mortais aquelas mesmas almas humanas com quem sempre teve proximidade e por quem sempre sentiu carinho. Assoberbado de uma tristeza escura, Arjuna, pela primeira vez na sua vida de heroísmo ímpar, manifestou uma impensável expressão de fraqueza de coração. “Meu corpo treme, minha boca está seca, meus braços estão moles, o medo me tortura integralmente, tenho arrepios nos pelos, meu arco escapa da minha mão e minha mente vacila. É difícil para mim até mesmo ficar em pé. Krishna, a vitória sobre eles, meus inimigos presentes, eu não busco. Eles eram parte de mim. Ainda são. Eu não busco reinos ou vida fácil. Que eles ataquem, pois eles querem e o farão. Mas eu não lançarei minha arma sobre eles, nem mesmo pela soberania sobre os três mundos, e tanto menos pela terra!”

Com uma arma moral após a outra, Arjuna atacou Sri Krishna. Ele estava determinado a descartar suas armas de guerra para sempre. Arjuna começou a sua filosofia com a correta predição da carnificina de seus compatriotas, da terrível calamidade da destruição da família. Ele enfatizou que, quando a virtude se perde, a família fica presa firmemente sob as algemas do mal. E tudo isso se dá por conta da falta de licitude. Quando a ilicitude predomina, as mulheres da família ficam corrompidas. Com as mulheres corrompidas, a confusão de castas começa a surgir.

Ofereço algumas palavras sobre a confusão de castas. A Índia ainda é ridicularizada impiedosamente por se ater ao sistema de castas. Em verdade, o sistema de castas é a unidade na diversidade. Cada casta é como um membro do corpo. As quatro castas são: o brahmin (sacerdote), o kshatriya (guerreiro), o vaishya (agricultor) e o sudra (trabalhador). A origem das castas é vista nos vedas. O brahmin é a boca do Purusha, o Supremo personificado. Rajanya (kshatriya) são os dois braços do Purusha. Os vaishyas são suas coxas, e os sudras são seus pés.

Em conexão com a destruição das castas, Arjuna diz ao Senhor Krishna que tudo leva em direção ao temível pecado. No mundo ocidental, infelizmente, a palavra ‘pecado’ parece estar presente em todos os âmbitos da vida como algo mais fatal do que a perdição. Para eles, (perdoem-me,) o pecado é parte da vida. No oriente, especialmente na Índia, a palavra pecado traz um significado diferente. Ele representa imperfeição, nada mais e nada menos. A consciência humana prossegue da imperfeição à perfeição. Os videntes dos Upanishads não davam importância alguma ao pecado. Eles ensinavam ao mundo a serenidade, santidade, integridade e divindade do homem.

Retornemos ao pobre Arjuna. Ele disse: “Que os filhos de Dhritarashtra, armados, acabem com a minha vida enquanto eu esteja desarmado, sem resistência. Prefiro, em toda a sinceridade, a minha morte à vitória!” (1.46)

Ó Arjuna, o herói supremo! Descartando o seu arco e flecha, com pesar, trêmulo e devotadamente, Arjuna afunda no canto da sua carruagem.

“Lutar não é para Arjuna. Krishna, eu não lutarei.” (cf. 2.9)

 

Glossário de termos utilizados por Sri Chinmoy nos seus livros

Notas explicativas

(tiradas dos escritos de Sri Chinmoy)

 

AUM

Aum é uma sílaba com um significado e poder criativo especiais. O Aum é a mãe de todos os mantras. Quando entoamos AUM, o que acontece é que trazemos Paz e Luz das alturas e criamos uma harmonia universal dentro e fora de nós. Quando repetimos AUM, nossos seres interior e exterior ficam inspirados e carregados de Luz divina e aspiração. AUM é inigualável. AUM possui um poder infinito. Podemos realizar Deus simplesmente repetindo AUM.

 

Aspiração

Aspiração é uma sede interior pelo Amor, Luz e Deleite de Deus. A aspiração é um choro interior. Chore, chore como uma criança, a partir dos mais íntimos recessos do seu coração. Não há oração que não seja atendida, meditação que não seja satisfeita, se você chorar sinceramente. A aspiração é o clamor ascendente da sua alma por alcançar o Altíssimo e trazer o Altíssimo para a consciência da Terra.

 

Chakras

Há três canais principais por onde a energia-vida passa. Esses canais se cruzam em seis lugares. Cada ponto de encontro forma um centro. Cada centro tem uma forma circular, como uma roda. A filosofia espiritual indiana chama esses centros de chakras. Todos os Mestres espirituais verdadeiros, partindo das suas experiências, dizem que é melhor abrir o chakra do coração primeiro, e apenas então tentar abrir os outros centros.

 

Guru

Guru é uma palavra do sânscrito que significa ‘aquele que ilumina’. Quem oferece iluminação é chamado de Guru. De acordo com a minha própria realização interior, eu gostaria de dizer que existe apenas um Guru de verdade, que é o Supremo. Nenhum ser humano é o verdadeiro Guru. Mas, apesar do Supremo ser o único Guru, na Terra valorizamos o tempo. Se encontrarmos alguém que pode nos auxiliar na nossa jornada em direção à iluminação, tomaremos seu auxílio e poderemos chamá-lo de Guru.

 

Japa

Japa é a repetição de um mantra. AUM é um mantra; não se trata de japa. Mas se repetir AUM duas, três ou centenas de vezes, essa repetição se chama de japa. Um mantra pode ter uma sílaba, várias sílabas ou mesmo algumas sentenças. Quando repetimos o mantra, isso se torna japa. O japa deve ser feito de manhã ou durante o dia, e não logo antes de ir para a cama.

 

O coração espiritual

O coração espiritual fica bem no meio do peito. Se achar difícil meditar no coração espiritual, poderá se concentrar no coração físico. Após meditar ali por alguns meses ou um ano, sentirá que dentro do seu coração humano comum está o coração divino, e que dentro do coração divino está a alma. Quando sentir isso, começará a meditar no coração espiritual.

 

Supreme

Só há um Deus, que chamado por diferentes nomes. Eu gosto do nome ‘Supreme’ [‘Supremo’ em português]. Todas as fés religiosas possuem o mesmo Deus, mas referem-se a Ele diferentemente. Um homem será chamado de ‘pai’ por alguém, ‘irmão’ por outra pessoa, e ‘tio’ por uma terceira pessoa. Igualmente, Deus é chamado de diversas formas, de acordo com o doce e carinhoso sentimento que temos. Ao invés de usar a palavra ‘God’, eu uso a palavra ‘Supreme’ na maior parte do tempo. Quando dizemos ‘Supreme’, falamos do Senhor Supremo que não apenas alcança o absoluto Altíssimo, mas vai sempre além e além e transcende o Além.

 

O vital

Cada ser humano é composto de cinco elementos: corpo, vital, mente, coração e alma. Há dois tipos de vital em nós. Um é o vital dinâmico, e o outro é o vital agressivo. O vital incorpora dinamismo divino ou agressão hostil. Quando o aspirante traz a luz da alma à tona, a agressão hostil se torna dinamismo divino, e o dinamismo divino é transformado em tudo-preenchedora Realidade suprema.

O vital e as emoções são coisas distintas. Pode-se dizer que o vital é a casa, e que na casa há o inquilino, a emoção. A emoção mais predominante é a emoção vital. Mas a emoção pode estar no corpo, na mente e no coração.

 

 

 

“Deus sempre nos diz

Que a nossa busca pela Verdade

Não acabará em vão.”

– Sri Chinmoy

Poemas completos de John Keats – “A beleza é uma alegria eterna.”

Poemas completos de John Keats – “A beleza é uma alegria eterna.”

por Patanga Cordeiro

poemas de john keats livro

Complete Poems of John Keats, Wordsworth Edition.



“Aquilo que a imaginação captura como Beleza deve ser a verdade”. Assim escreveu o poeta romântico John Keats, nascido em 1795 e que viveu apenas 25 anos. O livro que li abriga toda a sua poesia, desde os trabalhos iniciais, incluindo as Odes e duas versões do Hyperion, incompleto. Além, é claro, da famosa obra Endymion, que começa com sua mais famosa frase: “A beleza é uma alegria eterna.” A beleza é provavelmente o tema mais recorrente na obra, algo com que eu mesmo me identifico muito – a palavra Beleza, Beauty, me encanta imensamente. Outro aspecto que me encanta muito é o lirismo acentuado das suas obras. Keats é reconhecido como um dos maiores poetas ingleses. Suas obras, em beleza e lirismo nos inspiram a pensar no Divino.

Abaixo dois poemas traduzidos por mim:

 

A Morte

1.

Pode a morte ser sono, quando a vida é um sonho,

E cenas de deleite são fantasmas vagando?

Prazeres transientes parecem visões,

E ainda pensamos que a maior dor é morrer

2.

Quão estranho é que o homem na terra vague

E tenha uma vida de sofrimento, mas não desista

Do seu caminho irregular; nem ouse enxergar sozinho

Sua perdição futura que é simplesmente acordar.

 

 

Soneto

 

Esta história agradável é como um pequeno bosque:

As linhas adocicadas vividamente se entrelaçam

Que o leitor em tal doce lugar alçam,

Que aqui e ali o coração cheio pára;

E por vezes sente as gotas orvalhadas

Frescas e súbitas sobre o seu rosto,

E na melodia que vaga podem tracejar

Por onde as pernas delgadas do pintarroxo saltitam

Oh, que poder tem a alva simplicidade!

Que grandioso poder tem esta gentil história!

Eu que para sempre anseio por glória

Poderia por agora contentar em deixar

Gentilmente sobre a grama, tal como as lágrimas em arrocho

Dos que ouviram nada senão os solenes pintarroxos.