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Livro Bhagavad Gita – capítulo 4 – Conhecimento, Ação e Sacrifício

 

No segundo e terceiro capítulos do Gita, Sri Krishna abençoou Arjuna com alguns vislumbres de luz yogi. No presente capítulo, ele abençoa Arjuna com uma enchente de luz espiritual. Ele ampla e abertamente revela os segredos do Yoga. Difícil tornou-se para Arjuna acreditar que Sri Krishna ensinou a Vivaswam (o deus-sol) esse Yoga eterno. Vivaswam ofereceu-o ao seu filho Manu, e Manu o transferiu aos seu filho Ikshwaku; e dele foi passado para os Rishis reais. Muito antes do nascimento de Krishna, Vivaswam viu a luz do dia. Naturalmente, a declaração de Sri Krishna lançaria Arjuna num mar de confusão.

O eterno mistério da reencarnação está agora sendo revelado. Krishna diz: “Arjuna, você e eu passamos por incontáveis nascimentos. Eu os conheço todos, mas a sua memória lhe falha. Apesar de eu não ter nascimento ou morte e ser o Supremo Senhor de todas as coisas, eu Me manifesto no universo físico através da Minha própria Maya, mantendo Minha Prakriti (Natureza) sob controle.” (4.5-6)

Maya significa ilusão. Ela também significa a irrealidade das coisas efêmeras. A irrealidade é personificada como uma fêmea, que também se chama Maya. As palavras Dharma e Maya são a expressão constante e espontânea da alma indiana. De acordo com Shankara, o Vedantista dos cumes himalaios, há apenas uma Realidade Absoluta, o Brahman incomparável. Advaita, ou Monismo, derivado do Vedanta, é a sua significante filosofia. Apenas Brahman existe. Nada fora de Brahman existe. O mundo, como se coloca diante do nosso olho mental, é uma ilusão cósmica, uma prisão enganosa. Apenas quando o verdadeiro conhecimento desperta em nós é que estaremos em condição de nos livrarmos das redes da ignorância e das armadilhas do nascimento e morte.

Uma coisa que existe é real. Uma coisa que parece é irreal. Uma Vida eterna é real. Ignorância e morte são irreais. Maya é um tipo de poder cheio de mistério. Sabemos que eletricidade é um poder, mas não sabemos de fato o que a eletricidade é. A mesma verdade se aplica a Maya. Deus utiliza o Seu Poder-Maya para adentrar o campo da manifestação. É o processo do Uno tornar-Se muitos, e depois o Retorno dos muitos ao Uno original.

Prakriti quer dizer ‘natureza’. É a causa material, assim como a causa original de toda coisa na criação manifesta. Purusha é a Face silente. Prakriti é o sorriso ativador. Purusha é a consciência pura, testemunha, enquanto Prakriti é a consciência em evolução e transformação. Em e através de Prakriti acontece a satisfação do Jogo Cósmico.

Arjuna conhecia Sri Krishna como seu primo querido. Mais tarde, o conheceu como seu amigo do peito. Ainda mais tarde, ele o conheceu como seu amado Guru, ou Professor espiritual. Neste capítulo ele vem a conhecer Sri Krishna como o Supremo Senhor do mundo. Krishna diz: “Sempre que a imoralidade cresce e a retidão declina, eu Me incorporo. Para proteger e preservar os virtuosos e colocar um fim aos maléficos, para estabelecer o Dharma, eu Me manifesto de era em era.” A partir desse entoar alma-comovente descobrimos imediatamente que Ele é ambos o Conhecimento derradeiro e o Poder supremo. Com confiança e sorriso, ele recarrega Arjuna com uma corrente espiritual de alta-voltagem de sua grande Usina.

 

Samvavami Yuge Yuge (4.8)

Eu Me incorporo de era em era.

 

Sri Krishna agora se declara um Avatar. Um Avatar é o descendente direto de Deus. No mundo da manifestação, ele incorpora o Infinito.

Na Índia, há um mestre espiritual que se declarou ser um Avatar. Infelizmente, ele se tornou objeto de impiedoso ridículo, tanto no ocidente quanto no oriente. E, já que não conseguia lutar bravamente contra o pujante sarcasmo, ele por fim teve de mudar sua política malsucedida. Seu orgulhoso dito deu um passo adiante: “Não apenas eu, mas todas as pessoas são Avatares.” Já que todos são Avatares, quem irá criticar quem? Ah, por fim o auto-entitulado Avatar pôde dar um suspiro de alívio.

Pode parecer ridículo, mas é fato que, na Índia, praticamente todo discípulo diz que seu Guru é um Avatar, um descendente direto de Deus. Uma enxurrada de entusiasmo os varre quando falam sobre seus Gurus. O gigante espiritual Swami Vivekananda não pôde se conter e disse que em Bengala Ocidental, na Índia, os Avatares crescem como cogumelos na floresta. Por outro lado, dizer que só existiu um Avatar, o Filho de Deus, é igualmente ridículo.

A cada vez que um Avatar vem, ele cumpre um papel diferente na marcha da evolução, de acordo com a necessidade da era. Em essência, um Avatar não é diferente de outro. Um Avatar genuíno, Sri Ramakrishna, revelou a verdade: “Aquele que era Rama, aquele que era Krishna, agora está na forma de Ramakrishna.”[1]

Há dois opostos eternos: o bem e o mal. De acordo com Sri Krishna, quando a maldade alcança o seu zênite, Deus precisa envergar a veste humana, na forma de um Avatar. A vinda de Sri Krishna teve de lidar com a mais negra força maligna, Kamsa. Similarmente, Herodes, o tirano sem par, requeriu a vinda de Jesus Cristo. O nascimento do Cristo exigiu a extinção da vida de ignorância. Janmashtami, o nascimento de Krishna, é celebrado por toda a Índia, objetivando lembrar a saída do mar de ignorância e a entrada no Oceano de Conhecimento.

A maneira mais fácil e efetiva de conceber a idéia de um Deus pessoal é entrar em contato com um Avatar e permanecer sob sua orientação. Ter um Avatar como Guru é encontrar um porto seguro no barco da vida. Em conexão, podemos citar o corajoso dito de Vivekananda: “Homem algum pode ver Deus senão através dessas manifestações humanas. Fale o que quiser, tente o quanto quiser, você não consegue pensar em Deus senão como um homem.”[2]

De acordo com muitos, assim como o Buda é o homem mais perfeito, Krishna é o maior Avatar que o mundo já viu.

Há também os Anshavatars (Avatares parciais). Mas Sri Krishna é um Purnavatar (Avatar pleno), em e através do qual o Supremo está manifestado de forma completa, ilimitada e integral. Quando a aspiração humana se eleva, a Compaixão divina baixa na forma de um Avatar.

“Eu aceito os homens da forma como eles me procuram.” (4.11) Não pode haver alívio maior do que esse para o coração que sangra da humanidade. Se aceitamos Krishna com fé, Ele ilumina nossa mente de dúvidas. Se aceitamos Krishna com amor, Ele purifa nosso vital atormentador. Se aceitamos Krishna com devoção, ele transforma a noite ignorância da nossa vida no sol-conhecimento da Sua eterna Vida.

Sri Krishna agora quer nossa mente fixa nas castas. Ele diz que ele mesmo criou a ordem quádrupla do sistema de castas, de acordo com aptidões e ações de cada uma. Há pessoas que dão toda a importância ao nascimento e hereditariedade, e deliberadamente ignoram aqueles que são abundantemente abençoados com capacidades e realizações. O resultado é que a sociedade tem de sofrer com as bordoadas impiedosas da confusão total. É verdade que nascimento e hereditariedade possuem peso, especialmente no coração da sociedade. Mas essa dita importância não pode nos oferecer nem uma gota de luz e verdade. É por virtude da ação, nobre e serena, que podemos nos tornar o Altíssimo e manifestarmos o mais Profundo aqui na terra.

Do verso 16 ao verso 22, vemos Krishna despejando luz sobre ação, inação e ação incorreta. Ação – e, diga-se, ação verdadeira – não é apenas mover o corpo. Ação é auto-doação. Ação é abandonar o apego. Ação é trazer os sentidos sob controle. Ação incorreta é dançar com o desejo. Ação incorreta é desobedecer o eu interior. Ação incorreta é desviar-se do caminho da Verdade exotérica e esotérica.

Comumente acredita-se que inação é igual a inércia, preguiça e etc. Mas a inação verdadeira é lançar-se em atividades incessantes, todavia mantendo a mente consciente em um estado de sublime tranquilidade ou transe.

Fé e dúvida encerram o quarto capítulo. A fé não é o mero sentimento emocional de ser fiel à sua crença. É um alento interior vivente, ansiando por descobrir, realizar e viver na Verdade. A fé é o exercício da vontade do buscador em forçar-se a permanecer na tudo-vidente e tudo-preenchedora Vontade de Deus. O Yajur Veda nos conta que a consagração floresce na auto-dedicação, que a graça floresce na consagração, que a fé floresce na graça, e que a verdade floresce na fé. O que mais é a fé? Cito Charles Hanson Towne:

 

Eu não preciso fazer a minha fé falar alto.

Triplamente eloquentes

São as árvores silenciosas e a verde relva que escuta;

Mudificadas as estrelas, cujo poder é inexaurível;

As colinas estão silentes; e, ainda assim, como falam de Deus!

 

Dúvida é nua estupidez. Dúvida é absoluta futilidade. Dúvida é externa conflagração. Dúvida é interior destruição.

Sanmshayatma Vinashyati – “O possuidor da dúvida perece.” (4.40) Ele está perdido, completamente perdido. A ele é negado o caminho do Espírito. Também lhe é negado o segredo da iluminação da vida. Krishna diz: “Para o homem que duvida, não lhe pertencem nem este mundo e nem o próximo, e também não a felicidade.” O Novo Testamento nos presenteia com a mesma verdade: “O homem de mente duvidosa não desfruta deste mundo e nem do outro, e também não da beatitude final.” (4.40)

Em Nyaya (lógica), um dos seis sistemas de filosofia indiana, percebemos que a dúvida nada é senão um julgamento conflitante acerca do caráter de um objeto. A dúvida passa a existir do fato de ela reconhecer propriedades comuns a diversos objetos, ou propriedades incomuns a quaisquer objetos. A dúvida é justamente a falta de regularidade na percepção. E, também, sendo não-existente, ela apenas existe com a não-percepção.

A dúvida é um tigre tudo-devorador. A fé é um leão que ruge, inspirando o aspirante a se tornar o tudo-iluminador e tudo-preenchedor Supremo.

A pobre e cega dúvida, esquecida da verdadeira verdade, de que a fé é a mais forte e convincente afirmação da vida, tenta dar uma sacudida violenta no barco-vida do homem.

As encantadoras palavras do poeta incitam nossos corações em suas maiores profundezas:

 

Melhor um dia de fé

Do que mil anos de dúvida!

Melhor uma hora mortal Contigo

Do que uma vida interminávem sem Ti.

[1] * Swami Nikhilananda, Vivekandanda: Uma Biografia, Calcutta, 1987, p. 67.

[2] * Swami Vivekananda, The Yogas and Other Words, Swami Nikhilananda, ed. New York, 1953, p. 420.

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