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Dinamismo x letargia: meditação e atividade física é a resposta

por Adriano Passini

Dinamismo e letargia, duas palavras antagônicas que podem erguer ou destruir sua vida. Uma pessoa dinâmica é aquela que possui ânimo suficiente para colocar suas ideias e inspirações, que estão no plano mental em ação, ou mesmo ser uma pessoa mais ativa. Ao contrário disso, uma pessoa letárgica é aquela que não consegue fazer o mínimo necessário em algumas ou todas as atividades para se tornar uma pessoa melhor, vive planejando, pensando no futuro e não consegue materializar praticamente nada que é preciso para evoluir – uma pessoa estagnada.

Mas de onde vem esse o dinamismo? E a letargia? Como isso acontece? Para explicar essa situação, Sri Chinmoy descreve que nosso ser é dividido em 5 partes: o corpo, o vital, a mente, o coração e a alma. Cada parte é responsável por alguma coisa, e a letargia está associada ao corpo e ao vital.

O corpo é a parte materializada da nossa existência. Com ele conseguimos sentir e tocar as coisas. É nele que residem as outras quatro partes. Por natureza, o corpo é parte estática de nosso ser. Sem as demais partes, ele praticamente é uma união de átomos e moléculas que não tem serventia. Em resumo, o corpo quer apenas ficar parado e, se possível, dormindo. Porém, quando bem utilizado, é um forte instrumento de manifestação de Deus.

O vital é a parte responsável pelo dinamismo, porém junto com ele estão nossas emoções. Sem o vital, não somos capazes de fazer praticamente nada, é ele que nos fornece energia para realizar nossas ações. Mas, como no vital as emoções também imperam, é preciso que seja feita uma purificação para que fiquemos com a parte mais elevada que ele nos tem a oferecer.

É evidente que muitas pessoas tendem a ativar o dinamismo com mais facilidade que outras, pois elas possuem qualidades divinas que facilitam esse processo, tais como determinação e disciplina. Para ativar esse dinamismo de forma plena, é necessário muita força de vontade, porém, o método mais eficiente é através da meditação.

A meditação fará com que ativemos nosso coração, e através dele abrimos nossa porta de conexão com a alma. Isso é, a Graça Divina é capaz de entrar em nosso ser ativando o que temos de melhor. No caso do vital, ela ativa o nosso dinamismo. É por essa razão que muitos buscadores espirituais sentem vontade de praticar alguma atividade física ou então fazer alguma forma de serviço dedicado à humanidade após sua meditação diária.

O grande problema da letargia é que pode ser facilmente confundida com o cansaço. Muitas vezes as pessoas acham que estão cansadas, mas na verdade é a falta de dinamismo. Como pode alguém ficar cansado se dormiu mais de 8 horas em algumas noites e não fez nenhuma atividade física que fizesse ela ficar demasiadamente cansada? Não faz sentido algum. Em casos mais extremos, há pessoas que chegam a dormir mais de 10 horas por noite no final de semana, passam o dia vendo televisão e na internet e chegam na segunda-feira morrendo de sono.

Isso acontece porque a pessoa entrou na consciência do corpo e não ativou o seu dinamismo. Em um caso diametralmente oposto, como pode um atleta, que treinou intensamente no final de semana, chegar na segunda-feira com ânimo para enfrentar a semana? Essa pessoa ativou o dinamismo através de alguma atividade física.

O grande problema de uma pessoa que fica nesse estado de letargia é um ciclo vicioso. Ela entra na consciência do corpo, não ativa o dinamismo, e se sente cansada. Ela pensa que precisa de mais e mais descanso, mas na verdade precisa apenas quebrar esse ciclo, sair da inércia e ativar o dinamismo. Fazendo isso, ela automaticamente vai se sentir melhor e mais ativa, com muito mais ânimo.

Evidentemente para sair desta inércia, a pessoa precisa de um esforço consciente e determinação. Eu mesmo já passei por uma situação dessa, onde passei 6 dias sem atividade física alguma por ordem médica. Eu me senti cansado e sem ânimo para nada, foi horrível. No final do sexto dia, através da meditação, cheguei a conclusão que eu precisava de dinamismo e não estava cansado. Peguei minha bicicleta e pedalei durante 1 hora e meia, foi suficiente para ativar o meu dinamismo e me fazer sentir infinitamente melhor. Em resumo, eu eliminei a letargia do meu corpo e entrei em um estado de consciência muito mais dinâmico.

Muitas pessoas sabem que se praticar uma atividade física elas se sentirão muito melhores, mais ativas e felizes. Mas por que não fazem isso, por que tanta dificuldade em sair um pouco de casa e ativar o corpo? Porque sair da zona de conforto não é fácil. É preciso energia, assim como na química, para iniciar uma reação, é preciso uma energia de ativação. Essa energia nem todos têm facilidade em ativar. Mas todos nós precisamos conseguir essa energia. Algumas pessoas a tem naturalmente e outras conseguem através da meditação.

A meditação é algo realmente incrível, que pode nos levar à felicidade verdadeira, e uma das consequências dela é conseguir uma energia dinâmica que nos traz alegria. Portanto, se a meditação for feita da maneira correta, com toda certeza, o buscador conseguirá energia para realizar as mais diferentes tarefas do dia-a-dia.

Meditação e maratonas – autotranscendência nos esportes

por Juliana

Minha história nos esportes

Quando criança e adolescente eu era a última a ser escolhida para as equipes de educação física. Eu tinha muito medo da bola. Naquela época, não havia incentivo da família ou mesmo amigos que tivessem amor pelos esportes, que servissem de inspiração. Quando me tornei adulta, acabei priorizando a vida profissional e não sobravam tempo e energia para os esportes. E assim se passaram 35 anos. Sempre começando a fazer academia e parando após 1 ou 2 meses de pouca assiduidade.

 

Como comecei a treinar para a maratona

Em setembro de 2017, conheci o centro de meditação Sri Chinmoy, que me ensinou a meditar e me apresentou um caminho para a autotranscendência. Uma das dicas que aprendemos no curso de meditação fornecido pelo centro, é que para uma boa meditação a prática de esportes é um dos itens de grande importância. O professor indicou a corrida, pois é um esporte que não custa, precisamos apenas de um tênis e vontade. Como não estava me sentindo satisfeita com a minha vida, meus hábitos e desejava algo a mais, decidi que faria tudo que me fosse recomendado, tentaria fazer diferente. Em uma das aulas nos foi apresentado um documentário sobre uma senhora, que corria por aproximadamente 60 dias, o dia inteiro, em uma prova de rua organizada pelo centro internacional Sri Chinmoy. Fiquei impressionada, como isso seria possível? Os médicos dizem que é impossível! Foi super inspirador e me senti na obrigação de correr pelo menos por duas horas no dia seguinte. Mas, como eu não costumava fazer exercícios, consegui correr por 5 minutos direto (foi um super desafio) e caminhei por mais 25 minutos, porque o professor havia recomendado pelo menos 30 minutos de exercícios diários. No dia seguinte, consegui 10 minutos, depois 15 minutos e assim sucessivamente até chegar nos 40 minutos totalizando 5 km de corrida sem intervalos. Quando fiz os 5 km, me senti muito feliz, como se algumas barreiras mentais tivessem desmoronado, eu nunca antes pensei em correr. Foi uma experiência bem especial! Continuei correndo. Como ainda não tinha o hábito de correr, as vezes era bem difícil sair de casa para isso. No início, costumava ir 1 ou 2 vezes por semana para uma praça próxima à minha casa.

Foi um desafio estabelecer a rotina, mas com a meditação começamos a nos perceber, nos conhecer e sentimos com mais clareza o que está acontecendo dentro nós. E percebi que quando corria meu dia era bem melhor! Na minha turma tinha uma colega muito especial, que é minha amiga hoje, que começou a correr muito, a fazer exercícios, e ela me inspirou a continuar e intensificar os treinamentos. O professor e os colegas que já participam do centro de meditação há algum tempo, na sua maioria, são maratonistas e ultramaratonistas, muitas mulheres e pessoas acima dos 60 anos (são muito inspiradores e isso me incentivou). Com o tempo os 5km passaram para 7km, depois para 9km. Estava me sentindo muito bem. Após quatro meses, havia conseguido estabelecer uma rotina de exercícios, resolvi fazer academia para fortalecer os músculos e percebi que desta vez seria diferente, não sentia que iria desistir, pelo contrário, o sentimento era bem diferente.

Em fevereiro, soubemos que aconteceria a Maratona Internacional de São Paulo, em abril, com várias modalidades de prova, então, pensei em fazer a prova dos 24 km, o que seria um grande desafio! Mas um colega do centro, que é ultramaratonista, me incentivou a fazer a maratona e eu, sem pensar, aceitei! No dia seguinte consegui correr 15 km. Foi incrível. Naquele momento percebi que poderia facilmente correr os 24 km, tornando a maratona o grande objetivo, o grande desafio. Bom, eu tinha dois meses para treinar. Meu marido faz provas e correu algumas meia-maratonas nos últimos 4 anos. Mas ele nunca pensou em fazer uma maratona, pois sabe o quanto a maratona exige do corpo e da mente. Quando eu disse para ele que iria fazer uma maratona, ele que conhece meu histórico com esportes e sabe como é uma meia-maratona, disse: – você está louca!

Peguei um treino com o colega que me inspirou a fazer a maratona, peguei dicas com o professor que é ultramaratonista também e com os demais colegas. Fiz os treinos, mas não exatamente como haviam me passado, mas me exercitei quase todos os dias.

 

Como foi a experiência de correr a maratona

Enfim chegou o grande dia, 08/04/2018. Acordei as 4h da madrugada, meditei e fomos. Estava me sentindo muito feliz e grata. Logo no início encontramos um idoso de 98 anos de idade que ia fazer a prova de 8km, foi uma grande inspiração, na sequência, encontrei com uma senhora de 68 anos, que é ultramaratonista e que iria correr por 12 horas na próxima semana, super inspiradora! Quando cheguei aos 21km meu corpo já estava doendo bastante, no 24km encontrei um senhor de 65 anos que estava ajudando, apoiando e incentivando a todos que passavam por ele, um verdadeiro um anjo, que me deu energia para continuar. Ele estava andando, porque estava lesionado, mas estava andando muito rápido. No quilômetro 30 percebi que já havia superado minhas expectativas e que terminaria a prova nem que fosse andando ou me arrastando. Meus amigos estavam muito à frente de mim, algo que percebi por conta das enormes curvas da USP. As pernas estavam muito pesadas, as ruas já estavam ficando bem vazias, a maioria das pessoas não estava mais correndo, mas apenas andando, e isso estava me influenciando. Como eu andava de hora em hora para tomar meu suplemento alimentar, encontrei novamente com o senhor anjo (falei que ele anda rápido né?) Ele apareceu no momento em que eu estava precisando, já estava bem esgotada fisicamente, me incentivou muito e eu continuei. Estava no quilômetro 36. Neste momento a dor se foi, comecei a correr como se estivesse começando a correr naquele momento, foi incrível, a dor foi embora e o cansaço também. Até que encontrei uma amiga, que estava muito à frente de mim, ela estava muito esgotada, seguimos juntas correndo até o quilômetro 40, quando voltamos a andar até que outro anjo aparecesse e nos acompanhasse até a linha de chegada.

 

A meditação nas maratonas

Percebi o quanto eu havia me transformado com a meditação e que sem ela eu, definitivamente, não teria conseguido fazer a maratona. Durante todo o percurso não duvidei, não senti medo, não permiti que a dor me dominasse. Pela primeira vez na vida, percebi que tinha o controle da minha mente e que, com isso, nós podemos tudo. Nos identificamos com a mente e temos a impressão de que ela detém a verdade absoluta. Neste processo, desde a decisão de fazer a maratona, sinto que, por meditar, não dei ouvidos as pessoas que tinham medo ou colocaram restrições que me impossibilitassem de fazer a maratona. Não duvidei de mim. Tive energia e força para treinar e foi tudo tão natural, espontâneo, diariamente fazia a meditação e limpava minha mente, a cada dia uma nova oportunidade de superação.

Senti que a maratona é um treino para a vida de quem busca se superar. Se você quer evoluir, a dor é inevitável, mas o sofrimento é uma escolha (frase famosa que antes não fazia nenhum sentido para mim). Na maratona, se você quer concluir o percurso e se superar, não há outra alternativa, senão superar a dor e seguir em frente.

 

Maratona e o dia a dia

Em dado momento, você percebe que o resultado da sua vida é de sua responsabilidade, se você não fizer o que tem de ser feito, ninguém pode fazer por você. Na vida de evolução é assim, nos apropriamos da responsabilidade pelos resultados da nossa vida, se a nossa vida não está boa, é nossa responsabilidade. Como na maratona, é com você, só você pode ultrapassar a linha de chegada.

Percebemos que os melhores amigos são aqueles que acreditam neles mesmos, se eles acreditam neles, eles acreditam em você, e, por consequência, eles irão te motivar a seguir em frente, irão acreditar em você e te empurrarão para cima. Como na maratona, os anjos que apareceram, eles sabem da própria capacidade e por isso, sabem da sua capacidade também.

Na vida, como seres humanos, nosso propósito também é passar à frente o que aprendemos e o que ganhamos. Após a prova, a minha amiga, aquela que finalizou a prova comigo, me falou que eu tornei os últimos quilômetros mais leves para ela, não sinto que fiz nada demais, mas fiquei emocionada porque durante a prova eu também contei com a ajuda de algumas pessoas, me sinto muito grata, apenas por transmitir o que recebi, isso também dá sentindo a nossa vida.

Por fim, o mais importante, na vida como na maratona, o controle da mente faz com que consigamos ultrapassar as barreiras do que é racional. Nosso mestre, Sri Chinmoy disse: “ Como pode a sua vida ficar satisfeita com pequenas realidades, se o seu coração tem grandes sonhos”. Com a meditação, nos autoconhecemos, nos fortalecemos e expandimos nossa capacidade. A mente nos limita, o coração nos expande. Durante a maratona foquei no meu coração, como faço durante a meditação. Com gratidão tive a força que precisava para seguir em frente e concluir a prova. Foi uma lição de vida, algo transformador.

Resumindo, eu consegui fazer a maratona e se você quiser, você consegue!

 

 

 

 

Como a meditação pode melhorar a sua performance física (ou não)

patanga cordeiro meditacaoHoje parei para escrever sobre a relação entre os esportes e a meditação, que são duas coisas que fazem parte integrante da minha vida há 13 anos e que amo muito.

A primeira coisa que pode vir à nossa mente inquisitiva ao pensar no assunto é provavelmente a questão da performance. A meditação melhora a sua performance?

Como a meditação pode melhorar a sua performance física (ou não)?

É claro que a resposta mais formal é “sim”. Aqui tem alguns exercícios e instrução sobre a mescla dos esportes e a meditação.

Agora, no meu próprio caso, farei um parêntese para explicar que eu estaria inclinado a dizer que a meditação não melhora o nosso desempenho no esporte. Explico a seguir. (Mas não se preocupem, logo falo das peripécias e recordes pessoais que a meditação me levou a encontrar no esporte – incluindo correr por 10 dias.) Escolhi também alguns aforismos do meu Mestre e de outros Mestres para agraciar o texto.

 

“Seja feita a Vossa Vontade”

A questão é que a meditação é algo em si, uma parte da nossa busca por si, pela realidade e verdade que jazem implícitas no mundo. Resultados, performance e desempenho são apenas rótulos para a expectativa humana. Assim, se eu medito para melhorar meu desempenho no esporte, talvez eu consiga – mas ficarei satisfeito de verdade com esses resultados? Ou isso só vai me levar a buscar resultados ainda maiores, até ganhar um campeonato importante ou desistir de tanto treinar? E em ambos os casos, a satisfação ainda não se vê.

É o que o Buda e outros grandes Mestres explicam como “a Meta por si só”. Se nossos desejos e impulsos (e dos outros, e suas expectativas sobre nós) forem satisfeitos na busca por uma felicidade pequena, talvez a obtenhamos, mas isso nos prenderá a elas e nos distanciará da meta da nossa alma. Já, ao escolher uma felicidade última, derradeira, as felicidades pequenas aparecerão no seu caminho naturalmente, como companheiras de viagem. Acho que é por isso que as pessoas que meditam têm uma tendência a ser mais tranquilas, mais simples, mais íntegras, etc. Não precisam correr tanto atrás de pequenas felicidades autoimpostas, ou exteriormente impostas. As felicidades e conquistas da vida vêm na hora e lugar certo, de forma natural e harmoniosa, num fluxo que começa a partir da prática espiritual de descobrir quem somos e o que precisamos. Começamos recebendo algo na nossa meditação matinal que nos mostra que há uma coisa que vale a pena buscar durante todo o dia e em todas as atividades.

E ainda há um passo a mais. “Seja feita não a minha, mas a Vossa Vontade,” http://www.meditacaosp.com/articles/meditacao-e-oracao/ é um dos dizeres mais famosos do Cristo. Uma das coisas que o aforismo exprime para mim é que nem mesmo devemos considerar as pequenas felicidades que aparecem espontaneamente no nosso caminho como algo de valia real. Existe Algo mais elevado, uma Vontade divina, e, se conseguirmos nos identificar com ela, até mesmo a tristeza e sofrimento serão felicidade plena. Num exemplo monumental, o próprio Cristo se sujeitou à crucificação sem resistir porque sabia que aquela era a Vontade do Pai; e isso é o que o fez ser o que ele é. Alguém que consegue não apenas dizer “Eu e meu Pai somos um,” mas realmente viver essa realidade – identificar-se 100%, alegre e conscientemente com a Vontade divina. A Vontade do Pai é a vontade do filho.

Para nós, como iniciantes na vida espiritual, se hoje é o dia para você perder na sua competição, e você conseguir se identificar com o Plano e aprender com a experiência, então é o melhor resultado possível que poderá ter. Não ganhará prêmio ou medalha e nem parabéns, mas encontrará uma riqueza interior – a única riqueza que é realmente nossa e permanente. Encontramos isso através da nossa oração e meditação muitas vezes.

 

Não é uma tarefa fácil

Juntar a coragem

Para se entregar consciente e devotadamente

À Vontade de Deus.

Sri Chinmoy, Twenty-Seven Thousand Aspiration-Plants, part 138, Agni Press, 1991

 

Coisas que só a meditação me fariam fazer

Agora voltamos o foco aos esportes!

Eu fiz um pouco de esportes até a adolescência, mas sem levar a sério. Quando comecei a meditar, o meu Mestre Sri Chinmoy sempre colocou muita importância na prática de esportes como parte integrante de uma vida espiritual completa (lembram da história das artes marciais e como começaram nos templos orientais como uma forma de disciplina espiritual?)

Sri Chinmoy era sempre muito diligente e nos mostrava na prática seus ensinamentos. Chegou a correr uma média de 30km por dia todos os dias, fazendo diversas maratonas, uma após a outras, e ultramaratonas. Depois, seguiu para os levantamentos de pesos absurdamente pesados. (Certa vez eu ajudei a montar um peso de 3100kg (isso mesmo, 3,1 toneladas) que ele levantou. Em dez rapazes, levamos uma meia hora só para colocar os 25 pesos individuais de 45kg na barra. Além de outras coisas!

(documentário sobre os levantamentos de peso)

Eu comecei bem devagar. No primeiro dia, mal consegui correr 400m. Mas devagarzinho fui aumentando, até conseguir completar 15km. Depois dessa de 15km, levei uns quatro dias para conseguir andar direito. Mas aí já não tinha limites – eu queria completar uma maratona (42km) e comecei a treinar para a meta de completar a distância. Corri o que podia e completei em 4h24min, nada mal para uma primeira maratona. Continuei correndo por uns sete anos, e fiz outros esportes também (outras histórias), até que…

 

Cada vez mais lento

Aí vocês pensam que meus tempos foram melhorando mais e mais, certo? É a parte irônica da história. Sempre com problemas no joelho esquerdo, na verdade correr ficou cada vez mais difícil, independente da velocidade. Ao mesmo tempo tive um problema de saúde que afeta o metabolismo, e acordava sem energia para fazer qualquer coisa até falar no telefone.

A história do joelho e mais a energia baixa foi se arrastando, e piorando na verdade. Chegou a ponto de eu não conseguir correr 10 min sem ficar tonto, sentar na calçada, etc. Para quem corria até 2h por dia, isso é uma coisa considerável. Não dá pra contar a história toda aqui, pois é longa, mas eu achei que em alguns anos ia acabar morrendo de fraqueza.

 

Uma caverna

Não tem paz.

Mesmo uma cova

Não tem paz.

Mas a coragem-Deus-entrega

Possui e é a paz.

Sri Chinmoy, Peace: God’s Heart-Home, part 2, Agni Press, 1995

 

Indo além de si

Eu estava diante dessa situação lastimável. Parecia mais um verme se retorcendo dentro de uma fruta estragada.

Eu tive indicação de um médico ayurvédico (os médicos alopatas não tinham a menor ideia ou diagnóstico do que acontecia comigo) para “gastar energia e ficar sempre ativo”. Eu tentei, mas não tinha muito como, pois já estava sem energia.

Aí algo aconteceu. Algo.

Conheci uma corredora que tinha corrido diversas vezes uma corrida de 10 dias (isso mesmo, dez dias correndo em voltas num percurso fixo), a Sri Chinmoy Self-Transcendence 10-day Race. Foi um choque para a minha mente, mas algo dentro de mim sabia intuitivamente “Eu tenho que fazer isso, se não vou morrer.” É algo irracional, certo, pois quem está mal não deve fazer esforço, certo? Nem sempre!

No meu caso, era uma questão de não me deixar limitar pelas tendências do físico. Uma questão de juntar coragem contra todas as opiniões (minhas próprias dúvidas, amigos preocupados, etc) e fazer o que eu sentia que devia fazer. Pense no que você teria me dito se fosse meu amigo e ouvisse a minha ideia, ou se fosse meu pai ou mãe. Não acredito que sem a meditação e o exemplo vivente do Mestre eu teria conseguido.

Enfim, decidi que, mesmo naquela condição, eu ia fazer a corrida. Comecei me inscrevendo para a corrida de 10 dias e também para uma ultramaratona de 24h. Por mais estranho que pareça, eu não conseguia correr 10 minutos em casa antes, até o dia da corrida de 24h, acabei fazendo 12h lá. Não completei por que choveu, todas as minhas roupas molharam e, sendo num bosque ficou tão frio que eu comecei a tremer em espasmos. (“Marinheiro de primeira viagem). Mas foi bom porque já sabia o que esperar e como me preparar para a corrida de 10 dias.

A prova seguinte foi de 75km, com subidas e descidas e curvas em cotovelo, onde corri sem enormes problemas e completei a prova em 10h (é um ritmo lento, mas uma enorme vitória para quem não tinha joelho ou energia para correr 10 minutos), sentindo que poderia correr por mais tempo se fosse preciso. Inclusive, para terminar a prova, nas últimas horas eu corria mais rápido do que nas sete primeiras horas! E quão mais rápido eu corria, menos cansaço eu tinha, menos fome sentia e menos a dor me incomodava! Mais histórias dessa corrida:

Viram a mágica? Estava tudo dentro de mim! Dor e alegria, fraqueza e coragem, tudo! Agora eu tinha percebido que essa experiência do joelho e da falta de energia tinham vindo para me mostrar que eu tinha uma força dentro que não conhecia, que estava dormente, indisponível!

Continuei treinando, em alguns fins de semana correndo 12 a 16 horas para valer como treino para a corrida de 10 dias.

Essa corrida foi provavelmente uma das coisas mais preciosas que já descobri.

 

Correndo 10 dias – Infernos e Campos Elíseos

 

Quando chegou a corrida de 10 dias, eu mal podia esperar para começar.

Escrevi um relato mais completo aqui para quem interessar, com fotos e comentários sobre o que aconteceu comigo em cada dia da corrida.

Mas posso contar que no segundo dia, após umas 36h, eu queria desistir. Fui dormir mais um pouco e tomar uma ducha, mas a dor era muito grande para me manter emocionalmente estável. Tudo do umbigo para baixo ardia em inflamações. Tentei pensar que “vou dormir e depois eu vejo se desisto ou continuo”. Eu não imaginava como é que alguém gostaria de fazer aquilo – pois havia corredores que já faziam esse tipo de corridas por mais de 30 anos!

A corrida é como um campo de batalha da sua vida; mesmo ferido, você sai e volta a lutar, pois precisa. Depois de uns quatro dias correndo, o corpo começa a se adaptar, a dor fica mais suportável em geral e você consegue correr mais solto, mais rápido. (Isso mesmo, depois de quatro dias correndo, a sua velocidade volta um pouco). Diversas experiências interiores e exteriores acontecem todos os dias. Uma das mais bonitas da minha primeira corrida foi no sétimo dia. Eu estava tão feliz, tão satisfeito! Tudo era lindo. Eu conseguia ver mais cores do que no dia a dia. Um pássaro preto me mostrava nas suas penas que na verdade elas guardavam um arco-íris de cores. O céu, o lago, a relva verde e as flores de grama, tudo era… um paraíso! Se algum dia eu tive um vislumbre do que é um plano elevado de existência, foi naquela tarde. Só posso trazer à memória o conceito grego de “Campos Elíseos” – um lugar onde tudo é perfeito, a morada dos deuses. Caro leitor, como posso explicar mais? É como sonhar acordado, se beliscar e descobrir que a realidade é sonho e o sonho é realidade, e que a beleza dos dois se somam naquele ponto – o ponto exato onde você está agora.

 

Depois da corrida

Eu retornei mais três vezes em anos consecutivos para fazer novamente a corrida! E já estou inscrito para a do ano que vem!

Minha saúde melhorou muito – na verdade, ocorreu a inversão do processo. Durante os anos que foi piorando, a partir da corrida, ela foi melhorando em saltos! A dor no joelho é uma companheira ocasional, uma conhecida que pode até exigir a minha atenção, mas que também é um lembrete diário da capacidade ilimitada que temos. E que as experiências que temos são todas para o nosso bem. Só depende de encararmos elas a partir do ângulo correto.

 

Filmes recomendados sobre a meditação e sua relação com esportes

Se quiserem ver mais sobre a meditação e esportes, tem um filme feito por uma cineasta americana com uma discípula de Sri Chinmoy que correu a maior corrida do mundo, de 5000km, com tempo de corte de 52 dias. Chama-se “O espírito de uma corredora.”

Outro filme ali que posso recomendar é “O quebrador de recordes”, com Ashrita Furman, que é um quebrador de recordes do Guinness e praticante da meditação há 40 anos. Inclusive um dos seus recordes é o de ser o detentor do maior número de recordes mundiais.

 

Minha coragem

Minha coragem-corpo

Ousa morrer.

 

Minha coragem-alma

Ousa viver.

 

Minha coragem-realização

Ousa se entregar

Alegremente e

Incondicionalmente

À Vontade-Satisfação de Deus.

Sri Chinmoy, Transcendence-Perfection, Agni Press, 1975